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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

O empresário teve uma grande e enfadada surpresa ao como se vê-lo se não contasse com aquele sacrifício, mas dissimulando, ofereceu-lhe um banco no tablado, pedindo um instante para dar certas ordens. Anselmo sentou-se orgulhoso, certo de que o Heller fora reunir a companhia para a audição dos três atos da sua opereta que tinha o misterioso título de A Profecia. Mas o empresário tornou, instantes depois, resignado e só, e, tomando um dos bancos, sentou-se, dizendo em voz aveludada e com um sorriso de mártir:

— Podemos começar. Anselmo, ainda esperançado, lançou um olhar comprido para o fundo do teatro, através da platéia deserta e lúgubre, mas o palco estava vazio e escuro, em arcabouço, com os bastidores encostados em pilhas, uma grande concha, rutilante de malacacheta, tirada por dois cisnes e uma velha árvore que, na mágica, então preferida do público, esgalhava-se dando passagem à fada Primavera, uma artista italiana, grossa de corpo que, todas as noites, era delirantemente aclamada por um grupo de admiradores. Não havia viva alma. Resolveu-se a principiar a leitura. Desenrolou o manuscrito e o Heller, vendo a primeira página, fez uma observação lisonjeira:

— Bela letra! — sua?

— Sim, senhor. O empresário, arregalando os olhos, acenou com a cabeça admirativamente. Em verdade a caligrafia era magnífica: o título dos atos em caracteres góticos, a descrição dos cenários e as rubricas em fino cursivo à tinta carmim, e toda a escrita uniforme, sem uma emenda, sem uma rasura, limpa e igual. Anselmo começou e, logo às primeiras frases, o Heller, abichornado pela temperatura tépida da hora sonolenta, cerrou os olhos. A cabeça ia-lhe descaindo lentamente; ele, porém, logo a afirmava, olhando quebrantado, com a mão à boca para esconder os bocejos.

Ia começando o segundo ato quando uma atrizinha apareceu muito tesa, em passo miúdo, rebolindo-se, com a sombrinha acolhida entre os braços sob o colo. Fazendo leve cumprimento ao estudante inclinou-se para dizer alguma coisa ao ouvido do empresário que, de olhos altos, ia respondendo: "Sim... Sim... Sim..." Enquanto ela falava Anselmo, que acendera um cigarro, olhava-a e admirava-a. Clara, de olhos garços, pequenos, irônicos, mas de inexcedível vivacidade brejeira, lábios carnudos, cabelos castanhos e colo farto, que ondulava maciamente.

— É uma peça nova? — perguntou lançando um olhar ao manuscrito.

— Sim, disse o Heller.

— Há algum papel para mim? Anselmo afirmou:

— Há a princesa ou, se a senhora preferir, a fada. A atriz inclinou-se sobre o original, que o estudante deixara aberto na mesa, examinou-o, tomou-o nas mãos e, com um sorriso que dava ensejo a que o jovem autor visse duas filas de dentes admiráveis, exclamou enlevada:

— Com efeito! Que letra! Linda letra, heim, Jacinto?

— É verdade, concordou o empresário sonolento.

— Tão certa! Parece impressa. Sim senhor! Esta não precisa ser copiada para o ponto. O senhor escreve sempre assim?

— Sempre; afirmou o estudante.

— É admirável! E ajuntou: Quem tem tão linda letra deve escrever coisas admiráveis. Com licença... Se permite que eu ouça algumas cenas da sua peça... Há muito que começou? Que calor, heim? Em que ato está?

— No segundo.

— O primeiro não é mau, resmungou o Heller: tem vida.

— Vamos lá, disse a atrizinha chegando a cadeira para junto do estudante e, sempre com os olhos nele, risonha, ouvia. Ia Anselmo lendo uma grande e enfática invectiva quando se pôs a gaguejar, perturbado: sentira leve pressão no pé e, instintivamente, lançando um olhar interrogativo à atriz, viu que ela o fitava enternecida, com os olhos semicerrados e lânguidos. Quase ao terminar o segundo ato uma voz bradou do palco estentoricamente:

— Ó Jacinto! O empresário, ajustando o pince-nez, levantou a cabeça:

— Que é?

— Anda cá!

— Com licença. É um momento.

— Pois não. Ficaram os dois e o Heller ia ainda perto quando a atrizinha, em tom ardente e discreto, com a cabecinha inclinada, murmurou:

— Que olhos tem você, menino...! Ele sorriu tímido. Fazem mal à gente, palavra; ajuntou. Olharam-se e ela, sorrindo, tornou mais forte a pressão do pé.

— Você é estudante?

— Sou.

— De Medicina?

— Não: de Direito; estudo em S. Paulo.

— Ah! S. Paulo! — disse ela de olhos em alvo, como se aquele nome lhe trouxesse suaves e saudosas recordações. Inclinou-se sobre a mesa e Anselmo sentiu-lhe o contato dos joelhos. Ela examinou o frontispício do manuscrito e, lendo "Anselmo Ribas..." perguntou:

— É teu nome?

— É...

— Que idade tens?

— Dezoito anos. Encarou-o risonha, mordiscando o beiço e exclamou de novo:

— Mas que olhos! Você deve ser um homem terrível! Quem é a tua amante?

— Minha amante? Não tenho.

— Não tem!? — fez ela com espanto compadecido: Pobrezinho! De repente, sacudindo uma penugem que pousara na lapela do casaco do estudante, perguntou: — Vens logo ao teatro?

— Posso vir.

— Então espera-me depois do espetáculo. Onde moras?

— Na rua Formosa.

— Só?

— Com dois outros rapazes: Ruy Vaz e um estudante de Medicina.

— Ah! Moras com Ruy Vaz?

— Moro.

— Bonito rapaz aquele, heim?

(continua...)

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