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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

O espanhol estava convencido de que os seus patrícios tinham interesse em ser guiados por ele e por essa razão, não receando que o traíssem, terminou dizendo apenas:

— É inútil acrescentar que serei desapiedado para com os covardes. Nunca se esqueçam disto:

"Aquele que não cumprir o seu dever... queimá-lo-ei vivo!"

Esta ameaça pavorosa foi abafar a última centelha de liberdade que porventura restava nos ânimos escravos de todos que a ouviram. Esses miseráveis podiam juntos esmagar o infame que os dominava; mas cada um deles, não contando com o apoio dos companheiros, não tinha coragem de ser o primeiro a resistir. Os espanhóis, a quem o chefe confiara a parte mais perigosa da empresa, não ousaram fazer a menor observação às ordens do superior. Os negros só tiveram palavras de aplauso.

O chefe conhecia bem a sua gente.

Quando os bandidos se dispersaram já o crepúsculo ia se mudando em noute.

Depois de engolirem alguma carne mal cozida e ervas quase cruas, enrolaram-se eles em capas e estenderam-se na relva úmida, deixando a postos duas sentinelas. Estas sentinelas eram dons negros, pai e filho, que lançaram fogo a um monte de lenha, algum tanto molhada pela chuva que caíra de dia, e começaram a prestar atenção aos ruídos da noite.

Um vento fresco sibilava através das árvores. Agitando a ramagem fazia cair uma infinidade de pingos d'água que a chuva depositara nas folhas e curvava as chamas que principiavam a abrasar o monte de lenha.

O negro mais velho aproximou-se do fogo e assentou-se. Meio aquecido, pôs-se a dormitar, ao passo que o filho continuava a escutar o barulho da viração noturna.

Passadas duas ou três horas, ouviu este um rumor interrompido... uniforme, como se fora o caminhar receoso de alguma pessoa sobre as folhas molhadas.

Por um momento a sentinela lembrou-se do desconhecido que costumava espiar o acampamento. O barulho, porém, cessou e o negro, nada mais percebendo, acreditou ter ouvido apenas os passos de alguma fera, que a fogueira acabava de afugentar, e esqueceu-se do rumor para se divertir com o cabecear do companheiro que dormia assentado...

Já se avizinhavam as primeiras horas da manhã quando o negro mais moço resolveu acordar seu pai. Seguiu-se então a cena que Eustáquio e os seus homens assistiram do alto da castanheira que nessa ocasião ocupavam.

Como narramos em um dos precedentes capítulos, o estalido da espingarda de um dos paraenses denunciou a presença dos exploradores no acampamento dos bandidos, cujo chefe foi despertado pelo grito da sentinela. Como também ficou narrado, o chefe ordenou que fossem examinadas as circunvizinhanças da clareira e o alto do arvoredo.

Iam os dous negros trepando pelo tronco de uma árvore, mas desceram logo e se precipitaram na clareira, gritando:

— O espião! o espião! Vai fugindo por ali!

Estendiam a mão na direção do povoado de S. João do Príncipe. Tinham ouvido os passos dos exploradores que fugiam.

— Hoje temo-lo seguro! exclamou o chefe.

Em um instante ergueram-se todos os malfeitores, acenderam alguns fachos e com eles lançaram-se na pista do espião assinalado pelas sentinelas, indo a frente o chefe. Conquanto a essa hora a lua em minguante estivesse ainda muito acima do horizonte nenhuma claridade havia na floresta que não fosse a dos últimos tições da fogueira. Logo que as balsas a encobriram, apenas os fachos dos bandidos deixaram-lhes ver o caminho.

A perseguição não durou muito tempo. O chefe conheceu que o suposto espião ia escapar-lhe mais uma vez, refugiando-se na povoação.

— Voltemos, disse ele.

E a quadrilha voltou para o acampamento.

Os quatro espanhóis que estavam incumbidos de oferecer serviços ao padre Jorge receberam do chefe as últimas instruções e, tomando ferramentas de lavoura, partiram apressadamente para o povoado...

Um luar fraco insinuava-se por entre a habitação de S. João do Príncipe e cobria de lívidas tintas o chão das vielas. Os bandidos transpuseram algumas habitações e pararam.

— Ouço vozes, disse então um deles.

— Há gente no largo, afirmou outro. — Precaução! disse um terceiro.

E prosseguiu, abafando a voz, como haviam feito os seus companheiros:

— Passemos adiante como pacíficos lavradores, que se levantaram cedo e vão ao campo.

Os malfeitores continuaram a atravessar o povoado e chegaram ao largo. Aí viram várias pessoas que caminhavam no mesmo sentido que eles.

No meio delas estava o padre Jorge, que eles conheciam. Os espanhóis o cumprimentaram. Em seguida, reconhecendo Eustáquio no meio do grupo, saudaram-no da mesma forma.

Quando iam sair pelo lado oposto da povoação, o padre Jorge os chamou e disse-lhes:

— Meus amigos, bem vejo que sois homens do campo, mas creio que apesar disso sabeis descarregar uma espingarda. Temos necessidade de companheiros valentes para repelir alguns salteadores. Quereis unir-vos a nós?

(continua...)

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