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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Tenta roubar-lhe o infeliz prelado,

Em cujo peito uma faísca lança.

Já vermelho, já trêmulo, no leito

Ele a agitar-se todo principia.

Mas a astuta rival da feroz culpa,

Para o golpe atalhar subitamente

Do mísero prelado se aproxima

E toda a raiva lhe converte em fome.

XVI

As recatadas sombras, entretanto,

O espaço tomam, que o brilhante globo

De vida e luz encheu. Raros luziam

No firmamento os pregos de diamante

Com que a mão criadora do universo

Fixou a tela azul da larga tenda

Em que apenas um dia nos sentamos,

Os que viemos do nada, os que apressados

Vamos em busca da encoberta terra

Da eternidade. Nem acesa fora

A saudosa lâmpada da noite,

Tão buscada das musas que suspiram

Suas quimeras, seus afetos castos,

E amam dizer aos solitários ecos [22]

De que mágoas teceu ímpia fortuna

0 viver que os afronta. Rijo vento

Empuxava de longe opacas nuvens

Que a tempestade próxima traziam,

Como se nessa tenebrosa noite

Em perturbar a doce paz da vida,

Coos homens apostasse a natureza.

XVII

Livre do abalo grande que o prostrara,

O prelado cogita uma vingança.

Os amigos convoca, e todos juntos,

Com aquela energia e vivo empenho

Que aos seus alunos a Lisonja inspira,

Um meio buscam de vingar o Almada.

Com gênio de água, o douto Vilalobos

Os olhos deita a Roma, e quer que ao papa

Se faça apelação; mas o Cardoso

De cuja intrepidez e sangue frio

Nem o próprio diabo se livrara,

A excomunhão propõe dos santos frades,

Governador, Senado e povo inteiro.

Timidamente o abelhudo Nunes

Insinua o perdão; assaz punido

Lhe parece o ouvidor; toda a cidade

A força do prelado conhecera

Indomável, terrível; era tempo

De regressar à santa paz antiga.

Tais idéias o adulador Veloso

Com escárnio refuta; d'almas fracas

Foi sempre a mole paz recôsto amigo

Não das que o fogo endureceu na guerra,

Como a dele, que as iras arrostara

De todos os senados do universo

A exigir-lho o prelado. Convencido,

Êstes conceitos tais escuta Almada

E tendo meditado longo tempo,

Um recurso lhe lembra decisivo,

A garganta concerta, e desta sorte

A falar principia: “Companheiros...”

XVIII

Neste ponto um trovão estala e troa;

E do conselho aos olhos aparece

Sem do tecto cair nem vir do solo

Uma torva e magníssima figura

De longas barbas e encovados olhos

Que a rigidez marmórea traz na face.

E o trêmulo Congresso encara e exclama:

“Basta já de lutar! Se tu, prelado,

E vós, teimosos servidores dele,

Na guerra prosseguirdes que ameaça

A doce paz quebrar deste bom povo,

Sabei que a mão severa do destino

Nos volumes de bronze uma sentença

Contra vós escreveu. Dos vossos cargos

Perdereis o exercício, e sem demora

Ireis pregar a fé entre os gentios,

As tribos afrontar e as frechas suas,

Fomes, sedes curtir, vigílias longas,

Que o castigo serão da vossa teima”.

XIX

Isto dizendo, desaparece o vulto

(Que era nem mais nem menos a Preguiça).

Então os reverendos assustados

Pela terra se lançam, e batendo

Nove vezes nos peitos, nove vezes

O duro chão, em lágrimas, beijando,

Pedem ao céu que dos eternos livros

Riscado seja o bárbaro decreto.

FIM

DO POEMA “O ALMADA”

NOTAS DO AUTOR

O ALMADA

CANTO I

(continua...)

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