Por Bernardo Guimarães (1869)
Tendo pois bem recomendado o enfermo aos cuidados do pajé, Guaraciaba deixa a taba, corre à beira do rio, banha as faces e os olhos ardentes de insônia na sua onda límpida e fresca, e com um pente de madeira preciosa e aromática encrustado de lâminas de ouro desembaraça e alisa os negros e luzidos cabelos, que se espalham como um véu sobre os ombros e o seio. Vai depois pressurosa despertar seu pai, e com prazenteiro e ingênuo sorriso diz-lhe:
— Meu pai, ele vive!
— Quem, filha?... o imboaba?
— Sim, o estrangeiro, meu pai; esta madrugada abriu os olhos e falou...
— Bem, minha filha! dá graças a Tupá, que nos envia um herói dos imboabas para ser imolado no dia em que eu te entregar nos braços de Inimá como companheira de sua taba. Excelente agouro, que promete a perpetuação dos heróicos caciques do sangue de meus avós! O sacrifício desse sanhudo e valente imboaba será mais grato a Tupá do que se imolássemos um cento de vítimas ordinárias, e os céus serão propícios à tua união.
— Mas, meu pai, tu te enganas, esse prisioneiro não é um imboaba; ele é, como nós, filho e Tupá, fala a língua das florestas, e odeia como nós a raça de nossos perseguidores.
— E que manitó celeste, ou que pajé inspirado revelou-te esse mistério?...
— Ele; ele mesmo mo disse.
— E acreditaste!... não sabes que a mentira, o embuste, a traição andam sempre nos lábios dessa gente pérfida e cruel?
— Oh! não... sua voz, suas falas, sua figura não são do imboaba; nelas respira o espírito de verdade, e em seu rosto transluz a altivez do filho das florestas.
— De feito, murmurou o velho chefe abanando a cabeça, quem com tanta destreza encurva o arco e vibra tão mortíferas flechadas, quem combate com tamanho denodo e valentia, não pode ser do sangue vil do imboaba traiçoeiro. Mas seja como for, é sempre um inimigo e um herói; e tu, minha encantadora e querida Guaraciaba, tu és bem digna de que tua união seja consagrada com o sangue de um herói soterrado pelas mãos de teu esposo.
— Ah! meu pai! se para que minha união seja feliz e agradável aos céus, é mister que corra o sangue de um desgraçado prisioneiro, perdoa-me, meu pai, eu não serei nunca a esposa de Inimá!
— Que dizes, filha! como queres menosprezar a velha e sagrada usança de nossos antepassados? É sempre grato a Tupá o sangue do inimigo vertido em honra sua, e cometeríamos um crime se poupássemos a vítima que ele mesmo nos envia.
— Mas a vítima não é um inimigo, é um infeliz foragido, que porventura procurava entre nós gasalhado e asilo, e a quem recebemos com as armas na mão, como se fora um jaguar.
— Seja pois como dizes, prezada filha; quero ainda condescender com teus caprichos de criança. Sare esse estrangeiro de suas feridas, e quando o seu estado o permitir, seja conduzido à minha presença para nos dizer quem é, e contar-nos a sua história; depois veremos o que dele se fará. E ai dele se procurar enganar-me com seus embustes e mentiras!
CAPÍTULO IV
O RESTABELECIMENTO
Gonçalo, graças ao acertado curativo do sábio e experiente Andiara, e à desvelada solicitude com que o tratava a filha de Oriçanga, foi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contusões, e readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem dúvida mais que tudo contribuiu a amável e interessante enfermeira que o assistia. Guaraciaba, que em língua chavante significa – raio de luz – era com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.