Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ (A janela) – Com efeito um amor assim fora de tempo deve andar aos tombos pelas rugas do coração; mas a madrinha, que é oito anos mais velha do que nós, mostrou-te o caminho do casamento...
CASIMIRO – Que doida! que velha ridícula!
BRAZ – Desta vez é a madrinha que traz nos olhos a trave; mas o argueiro que está nos teus é de um tamanho colossal...
CASIMIRO – Eu sinto verdadeiro amor...
BRAZ – Também a madrinha diz que o sente; é questão de mais ou menos cabelos brancos nos dois amores... mas... Irene chega... como vem formosa! afortunado Casimiro! ao gabinete, perverso.
CASIMIRO (Entrando) – Conversa de modo que eu ouça distintamente. BRAZ – Podes contar com isso: conversarei fortíssimo.
CENA III
BRAZ, IRENE e CASIMIRO no gabinete
BRAZ – Minha senhora, dou parabéns à minha fortuna, pois que a madrinha e dª. Clemência ainda estão aprimorando os seus toilettes, e Casimiro e Mário provavelmente mostrando os seus.
IRENE – A fortuna de que fala é determinada pelo cruel dever de dar-lhe contas de mim ... compreendo que me cumpre falar, explicar-me, responder-lhe... mas custame... o vexame atormenta-me...
BRAZ – Na minha qualidade de homem é evidente que tenho menos vergonha e rompo a discussão, começando pelo fim, o que é mais em regra. Casimiro a adora; a sua mão de esposa vai aditar-me... uma só palavra sua resumirá mil discursos; diga – sim – , e está acabada não, mas principiada a história, e que história? et coetera.
IRENE – Devo ser franca: o sr. Casimiro está adiantado em anos e eu sou quase
menina; poderia sentir por ele somente amor filial; como lhe consagrarei amor de noiva? o nosso casamento seria muito desigual, e ainda isso é o menos.
BRAZ – Caio das alturas: pois há mais?... tenha a bondade de chegar-se para mim, que sou um pouco surdo (Perto do gabinete) pois há mais?
IRENE – Há: disse que ele é demasiado velho para uma noiva de dezoito anos...
tem três idades minhas.
BRAZ – Como?... esta surdez martiriza-me...
IRENE (Mais alto) – O sr. Casimiro tem três idades minhas.
BRAZ – Ah! isso é o menos: o que é o mais?...
IRENE – Pois que é necessário dizê-lo... confesso-o... eu já sou amada... e...
amo...
BRAZ – Como?...
IRENE (Mais alto) – Já sou ... e amo...
BRAZ – Ah! essa circunstância... bilateral é bilateralmente grave.
IRENE – E ainda mais...
BRAZ – Mais?... então é o infinito na desgraça de Casimiro... estou caído das alturas et coetera!
IRENE – Não é o infinito, mas é o impossível moral e absoluto...
BRAZ – Que ilusão a minha! e eu que contava... mas então...
IRENE – O homem por quem sou amada, aquele que amo... sr. Braz...
BRAZ – Querem ver que sou eu...
IRENE – É... Mário... o filho do sr. Casimiro...
CENA IV
BRAZ, IRENE, CASIMIRO no gabinete e MÁRIO, no fundo
BRAZ – Como? esta surdez é o diabo.
IRENE (Alto) – O homem por quem sou amada... aquele que amo... é Mário...
BRAZ – Mário? a atrapalhação é séria; porém...Mário é um estróina.
IRENE – Tem o mais nobre coração... é jovem e belo; eu o amo...o seu defeito era a ociosidade... ama-me porém ternamente... (Abre-se a porta do gabinete; Casimiro com os traços decompostos; Mário ao fundo entusiasmado) eu conseguirei corrigi-la... e pelo encanto... pela pureza e santidade do nosso amor levá-lo a trabalhar, a ser útil a si, à sociedade, e a esquecer entretenimentos vãos. (Casimiro sai arrebatado ao mesmo tempo que Mário avança)
MÁRIO – Prova! acabo de vender Hipogrifo. (Confusão de Casimiro) IRENE – Ah! meu Deus!
BRAZ (A Casimiro) – Contém-te, Mário chegou apenas a poucos momentos, e nada ouviu sobre tuas loucas pretensões... é indispensável que ele as ignore sempre.
CASIMIRO (A Braz) – Mas como está desmoralizada a mocidade! (A Irene) Minha senhora.
IRENE – Sr... Casimiro...
CASIMIRO – Peço perdão...entrei precipitado...
MÁRIO – Foi a mais feliz surpresa, meu pai.
CASIMIRO – Impertinente! sempre desassisado...
MÁRIO – Porque vendi Hipogrifo? dois contos para raiz de fortuna abençoada pelo amor de um anjo.
BRAZ – Adorável estróina, Deus te abençoe.
IRENE – Eu me confundo... e preferiria ir ver as senhoras.
CASIMIRO (A Mário) – Não compreendes que és inconveniente?
MÁRIO – Pois há mal no que disse?... meu pai, amo dª. Irene, ela ama-me; logo nos amamos; eu era um vadio, agora vou trabalhar; prova de juízo, vendo Hipogrifo; o que falta só é que meu pai aprove o que falta.
CASIMIRO (A Braz) – Que lição cruel, malvado!
BRAZ (A Casimiro) – Deixa-te de tingir os cabelos; resigna-te à reforma de namorado et coetera, e sabe ser feliz pela felicidade de teus filhos.
CENA V
BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, VIOLANTE e CLEMÊNCIA
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.