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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

1 Vossa boca para mim
não necessita de cravo,
que o sentirá por agravo
boca de tanto carmim:
o cravo, meu serafim,
(se o pensamento bem toca)
com ele fizera troca:
mas, meu bem, não aceiteis,
porque melhor pareceis,
não tendo o cravo na boca.

2 Quanto mais que é escusado
na boca o cravo: porque
prefere, como se vê
na cor todo o nacarado:
o mais subido encarnado
é de vossa boca escravo:
não vos fez nenhum agravo
ele de vos dar querela,
que menina, que é tão bela,
sempre tem boca de cravo.

POR AVISO CELESTIAL DAQUELLA GRANDE PESTE, QUE CHAMARAM BICHA
APPARECEO HUM FUNEBRE, HORROROSO, E ENSANGUENTADO COMETTA NO
ANNO 1689 POUCOS DIAS ANTES DO ESTRAGO. ASSENTAVÃO GERALMENTE,
QUE ANNUNCIAVA ESTERILIDADE, FOMES, E MORTES: POREM VARIAVÃO NOS
SUGEYTOS DELLAS, COMO COUSA FUTURA. O POETA APPLICA COMO MAIS
PRUDENTE CONTRA OS QUE SE ASSIGNALAVÃO EM ESCANDALOS NAQUELLE
TEMPO.

Se de estéril em fomes dá o cometa,
não fica no Brasil viva criatura,
Mas ensina do juízo a Escritura,
Cometa não o dar, senão trombeta.

Não creio, que tais fomes nos prometa
Uma estrela barbada em tanta altura;
Prometerá talvez, e porventura
Matar quatro saiões de impreialeta.

Se viera o cometa por coroas,
Como presume muita gente tonta,
Não lhe ficara Clérigo, nem Frade.

Mas ele vem buscar certas pessoas:
Os que roubam o mundo com a vergonta,
E os que à justiça faltam, e à verdade.

A HUMA DAMA QUE LHE PEDIO HUM CRAVEYRO.

O craveiro, que dizeis,
não vo-lo mando, Senhora,
só porque não tem agora
o vaso, que mereceis:
porém se vós o quereis,
quando por vós eu me abraso,
digo em semelhante caso,
sem ser nisso interesseiro,
que vos darei o craveiro,
se vós me deres o vaso.

PERTENDE AGORA (POSTO QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS,
QUE APPLICAVÃO O DITO COMETTA À VINDA DO ENCUBERTO.

Estamos em noventa era esperada
De todo o Portugal, e mais conquistas,
Bom ano para tantos Bestianistas,
Melhor para iludir tanta burrada.

Vê-se uma estrela pálida, e barbada,
E deduzem agora astrologistas
A vinda de um Rei morto pelas listas,
Que não sendo dos Magos é estrelada.

Oh quem a um Bestianista pergunta,
Com que razão, ou fundamento, espera
Um Rei, que em guerra d'África acabara?

E se com Deus me dá; eu Ihe dissera,
Se o quis restituir, não o matara,
E se o não quis matar, não o escondera.

NA ERA DE 1686 QUIMERIAVÃO OS SEBASTIANISTAS A VINDA DO ENCUBERTO
POR HUM COMETTA QUE APPARECEO. O POETA PERTENDE EM VÃO
DESVANECELOS TRADUZINDO HUM DISCURSO DO Pe. ANTONIO VIEYRA QUE SE

APPLICA A EL REY D. PEDRO II.

1 Ouçam os sebastianistas
ao Profeta da Bahia
a mais alta astrologia
dos sábios Gimnosofistas:
ouçam os Anabatistas
a evangélica verdade,
que eu com pura claridade
digo em literal sentido
que o Rei por Deus prometido
é: quem? Sua Majestade.

2 Quando no campo de Ourique
na luz de um raio abrasado
viu Cristo crucificado
El-rei Dom Afonso Henrique:
para que Ihe certifique
afetos mais que fiéis,
Senhor, disse, aos infiéis
mostrai a face divina,
não a quem a Igreja ensina
a crer tudo, o que podeis.
3 E Deus vendo tão fiel
aquele peito real,
auspicando a Portugal,
quis ser o seu Samuel:
na tua Prole novel
(diz) hei de estabelecer
um império a meu prazer:
e crê, que na atenuação
da dezasseis geração
então hei de olhar, e ver.

4 A dezasseis geração
por cômputo verdadeiro
assevera o Reino inteiro
ser o quarto Rei D. João:
e da prole a atenuação
(conforme a mesma verdade)
vê-se em Sua Majestade,
pois sendo de três varões
com duas atenuações
se tem posto na unidade.

5 Logo em boa conseqüência
na Pessoa realçada
de Pedro está atenuada
desta Prole a descendência:
logo com toda a evidência
e a luz da divina luz
se vê, que o Pedro conduz
o olhar, e ver de Deus,
que ao primeiro Rei, e aos seus
prometeu na ardente cruz.

6 E se o tempo é já chegado,
perguntem-no a Daniel,
que no sétimo aranzel
o traz bem delineado:
diz o Profeta sagrado,
que a quarta fera inumana
tinha na testa tirana
dez pontas, e que entre as dez
uma de grã pequenhez,
surgiu com potência insana.

7 Que esta ponta tão pequena,
mas tão potente, e tão forte
a três das grandes deu morte
cruel, afrontosa, e obscena:
quer dizer, que a sarracena
potência, ou poder tirano
do pequeno Maometano
tirara a seu desprazer
as três partes do poder
do grande império Romano.

(continua...)

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