Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

O que fez escândalo foi pertencer a fugitiva a uma das mais respeitáveis famílias católicas de Inglaterra e passar por ser uma das mulheres mais sérias da aristocracia inglesa. O facto em si, digo, é banal, e não merece uma linha de comentário: a grande sensação provém de que alguns jornais, por esta ocasião, lembraram-se de fazer uma espécie de revista retrospectiva da moralidade inglesa durante os últimos dez anos e chegaram à conclusão, muito exacta, que neste último período a imoralidade, sobretudo na sociedade mais rica, tem tomado tais proporções que Paris, Madrid, Viena, Nápoles, as cidades clássicas do adultério e do escândalo, ficam humildemente na sombra perante a colossal corrupção de Londres. Que tudo quanto o vício tem inventado de mais mórbido e de mais excêntrico floresce em Londres era sabido; mas supunha-se (os estrangeiros supunham, ao menos) que a sociedade cultivada tinha no mais alto grau as qualidades de honestidade, de fidelidade, de pudor, de probidade doméstica, que foram sempre um dos grandes orgulhos ingleses. Pois bem, pelo que dizem os mais bem informados, os últimos dez anos têm trazido uma transformação dissolvente da honestidade inglesa. Os adultérios, as fugas, os raptos, as seduções, os divórcios, os crimes de família, acumulam-se de ano para ano, dando à alta sociedade inglesa o aspecto sucessivamente decomponente de um fruto que apodrece. Enquanto a mim, sempre o pensei: mas não esperava vê-lo impresso e com cores tão carregadas nas mais sérias revistas e pelos moralistas mais estimados.

Basta observar um pouco as maneiras da inglesa moderna para se ver que ela poderá ser tudo – uma hábil cavaleira, uma excelente caçadora, um forte cocheiro, uma adorável amante, uma excelente atiradora à pistola, um óptimo companheiro de viagem, um atrevido parceiro para uma partida de bacará –, tudo, menos uma esposa e uma mãe. A maneira como se vestem, o atrevimento dos olhares, o hábito das conversações picantes, o vício do namoro, o gosto pelas bebidas fortes, a paixão pelos exercícios masculinos, a avidez de independência, o desdém público – tudo revela, a quem as conhece, uma tendência irresistível para o amor livre. A isto junte-se o temperamento ardente, uma imaginação excitada, uma natureza voluntária – e compreender-se-á a situação. A única coisa que retém ainda é o medo da opinião, do escândalo, da impressão; no dia em que este salutar receio diminuir, ou por cair em descrédito ou por o impulso da paixão ser mais forte – a Inglaterra voltará aos tempos mais devassos da sua história, e repetir-se-á a época fatal dos Stuarts.

Contra esta corrupção a corte procura reagir por uma áspera severidade: assim é sabido que, quando se apresentou à rainha o programa do último concerto real em Windsor, ela mesma, por seu punho, riscou o nome de Madame Adelina Patti, declarando que nunca admitiria no paço uma mulher que conhecidamente tinha um amante; o que não impede que as aventuras amorosas de Madame Patti lhe tenham dado em Londres uma espécie de auréola heróica – a ponto que a sua simples aparição em cena é saudada por aclamações que parecem dirigir-se menos à cantora ilustre que à heroína célebre de um drama conjugal.

Sinto não ter novidades literárias ou dramáticas a dar-lhes. As últimas semanas têm sido estéreis: o abuso das controvérsias políticas parece ter diminuído a produção artística – e as forças intelectuais, que em tempos calmos se empregam no romance ou no poema, voltam-se neste período de excitação pública para o artigo de jornal ou para o capítulo de revista.

A grande novidade em Londres é a chegada de um hóspede ilustre – o Sr. Pongo. Quem é o Sr. Pongo? É uma personagem em que todo o mundo fala, por quem as mulheres andam entusiasmadas, cuja fotografia se vende a cada canto e cujas acções mais insignificantes são registadas em tipo graúdo pelos jornais mais sérios.

O Sr. Pongo não é um príncipe, nem um general, nem um escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista – é simplesmente um macaco! Mas que macaco! É um gorilha: o primeiro, o único que tem vindo à Europa!

Este ilustre hóspede, que esteve primeiro em Berlim, que deu lugar a troca de notas diplomáticas entre o Governo inglês e o alemão a respeito da sua posse, chegou a Londres, onde é objecto de um fanatismo insensato. O Sr. Pongo (é assim que é geralmente conhecido) tem quatro anos de idade, ainda não entrou no período de dentição, já tem três pés e três quartos de altura e os seus músculos são de uma extrema força e agilidade. Comia ordinariamente farináceos e frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um pedaço de bife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Começaram a dar-lhe carne e água; come tudo o que come um gentleman: o seu almoço é como o de qualquer de nos – ovos e costeletas ou beefsteak.

Ao princípio só bebia água, mas veio-se à conclusão que poderia beber tudo – desde Bordéus até Moet et Chandon; a sua bebida favorita, porém, é a cerveja. Depois dos repastos dão-lhe um charuto, que ele fuma, deitando o fumo pelo nariz. A sua fisionomia e tão inteligente, tão viva, que, sem falar, compreende-se tudo o que ele quer dizer, pela vivacidade brilhante do olhar e pelo movimento dos beiços.

Apesar de não se exprimir, parece compreender certas expressões humanas: assim, quando ouve uma boa gargalhada, exalta-se, aplaude com as mãos, ri e parece cheio de júbilo. Mas o que há nele de mais humano é o instinto, próprio de crianças, de levar tudo à boca: assim, se lhe dão um lápis, antes de tratas de escrevinhar, leva o lápis à boca – como um baby.

O gorilha é, como sabem, o animal do qual o homem provém directamente, segundo as teorias modernas. Até aqui nunca fora possível caçar um vivo – e explica-se o interesse fanático que excita em Londres a presença deste nosso venerável antepassado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →