Por Eça de Queirós (1925)
Arthur, passeando cabisbaixo pelo escriptorio, iliaginava por aquelle estylo da carta da tia Ricardina a existencia em Oliveira d'Azemeis, entre as duas senhoras cheirando a rapé, fazendo á noite uma meia somn.olenta, depois do terço rezado com a creada, deante da commoda armada em oratorio. — Quem será este Albuquerquezinho ?
— Algum velho amigo da familia . . . Jogador de gamão, naturalmente — disse o eloqu'ente Sil veira,
— Emfim,—exclamou Arthur, — vamos lá para
Oliveira d'Azemeis. Atea jacta est I
Partiu d'Ovar, ao fim d'um dia torrido d'Agosto — e quando entrou, com o mogo que lhe levava o ballú, no pateo triste do casarão das tias, a torre de S. Francisco, ao lado, badalava as nove horas, sobre a Villa silenciosa,
As senhoras, carregadas de luto, vieram ao topo da escada receber o sobrinho, de braços abertos :
— Oh, menino, pois tu vens a esta hora . — exclamou a tia Ricardina— e sem prevenir ! Jesus, que desproposito ! Ai, mana Sabina, que é o retrato do mano Manuel ! Ai, dá cá um abraço, filho !
Arthur, muito embaraçado, POUSOU no chão a chapeleira, o paletot, o guarda-sol, para receber o beijo da Ricardina, que o esperava com uma lagrima ao comprido do seu grande nariz de cavallete ; depois, foi para os braços da Sabina, toda pequenina, toda enternecida, d'uma brancura de marfim sob a sua touca negra.
— Ai, filho, — repetia a tia Ricardina, levando-o para a sala — és o retrato do teu pae ! Olha, iamos agora mesmo tomar chá.
Sobre a mesa estava o taboleiro com as chavenas, e ao lado, á luz d'um candieiro de abat-jour transparente, que representava scenas de neve n'uma paisagem da Noruega, um sujeito nutrido e calvo fazia uma paciencia, muito tranquillamente. — Albuquerquezin,ho, aqui está o Arthurzinho. É o retrato do mano Manuel
O homem pousou devagar o baralho, voltou-se na cadeira e com as pernas muito abertas, as mãos espalmadas sobre os joelhos, examinou longamente Arthur, que torcia o buço, todo acanhado :
— Ora viva o meu amigo ! — exclamou subitamente, erguendo-se e ar:ebatando-lhe a mão, que conservou muito tempo, sacudindo-lh'a compassadamente — Ora viva o meu amigo ! Ora viva o meu amigo !
Sentou-se e depois de ter acamado com methodo, d'um e d'outro lado da calva, os tres pellos grigalhos, retomou gravemente o seu baralho.
Mas o moço esperava á porta, e Arthur, remexendo no bolso, estendeu-lhe dois tostões.
— Credo ! — exclamou Ricardina — Tu estás doido, menino ! Olha o desproposito ! Vae muito bem com quatro vintens. Vá, Joanna, ajude-o a levar o bahú para cima. Espera, eu tambem lá vou. Sempre é melhor que eu lá vá. E tu deves vir a cahir de fraqueza, filho. Veja lá se Ih 'arranja já alguma cousa, mana Sabina. Vá, não fique ahi pasmada !
Sabina apressou-se a ir para a cozinha emquanto o Albuquerquezinho, muito serio, ia baralhando socegadamente as suas cartas.
— Boa viagem ? — perguntou, fixando Arthur.
— Muito agradecido a V. Ex.a, fiz muito boa jornada
— O mar picado ?
— O mar ? — murmurou .Arthur, assombrado. — Eu venho d'Ovar
— rosnou Albuquerquezinho, com desprozo. Na diligencia ! Nelson, o grande Nelson não andava em diligencia . . .
Nelson era um almirante e eu
— Chut ! — fez imperiosamente o Albuquerquezinho, que, tendo disposto um quadrilatero de cartas, ia agora voltando uma a uma as que restavam no baralho : — az ! terno ! valete ! duque !
Arthur examinava com espanto a sua cabeça grave de tabellião, a calva polida e lustrosa como madre-perola, com quatro pellos brancos sobre cada orelha, a face rubra e bem nutrida, o beicinho luzidio, as duas suissas pequenas, grisalhas e o magestoso collet,e branco onde serpenteava um grilhão. Mas o que o maravilhava, eram tres galões d 'ouro, de general, que elle trazia cosidos no canhão da manga.
— V. Ex. a é amador de, paciencias ? — perguntou Arthur para quebrar o silencio.
Um chut ! despedido com colera emmudeceu-o. Arthur ergueu-se, offendido ; uma das janellas estava aberta á noite calida de Agosto : defronte, vermelhavam os dous bocaes escarlates na vidraça da botica, e em redor, sob o céu negro, todas as casas, a praça, pareciam adormecidas no ar pesado, com uma ou outra janella aberta, mortiça..D)erzte aluminda. Devia ser aquelle o fim da Villa, porque se ouvia no grande silencio, a distancia, paxa além da massa escura da capella, um coaxar triste de rãs.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.