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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Mas, de todas as crianças da aldeia, uma governava superiormente o seu coração. Era a filha de uma viúva – daquela que Cristóvão ouvira chorar, e à porta de quem batera, como mandado por Jesus, seu amo. O pai morrera nesta noite – e à pobre mulher não restava ninguém no mundo para tratar as terras, cuidar das ovelhas. Mas, desde essa noite, uma grande força útil entrara no casebre. Cristóvão foi o servo fiel: - e nenhuma horta na aldeia andou mais bem regada, nenhum gado apascentado em prados melhores, nenhum torrão mais fundamente arado. Um riso da criança (que se chamava Joana), o seu jeito de lhe puxar as barbas, recompensava-o de todo o trabalho. Mesmo brincando com as outras, era em Joana que pensava. De noite rondava a porta do casebre, a escutar se ela chorava no seu berço. Cedo, de manhã, ia postar-se na horta entre os limoeiros, à espera que ela corresse de dentro com o seus bracinhos abertos: e todo o dia ficava sentindo nos cabelos, nas barbas, a doçura das suas mãozinhas, que o arrepelavam. Ele amava-a por toda a sua pessoa – a covinha da face quando ria, a graça da sua voz hesitante, os seus pés mal seguros sobre a terra lavrada. Amava-a sobretudo pela sua fraqueza – e não antevia vida melhor do que passar eternamente a servi-la, e a ser alegremente arrepelado. O seu prazer maior era trazê-la escarranchada aos ombros; ela ria, agarrada aos seus longos cabelos; e ele caminhava grave e vaidoso, como se conduzisse a sagrada hóstia.

Por vezes comparava-o ao Menino, ao Menino divino, que ria no seu curral, e aprendia a ler no grande livro de Santa Ana. Os seus olhos claros e largos deviam ser como os de Joana. E o seu pesar era não saber ler, para abrir sobre os joelhos um livro, onde o seu dedinho espetado fosse seguindo as letras grossas. Decerto, Jesus, se conhecesse, Joana, a devia amar. Ela era inocentinha como uma flor do valado: e o seu anjo da guarda esperava quieto, quando ela parava no caminho, a remexer na terra, à procura de bichos. Por mais longe que andasse trabalhando, sentia a voz de Joana se ela o chamava , como se a voz viesse de cima, do Céu – e apressava então a obra, à força dos braços, para correr ao seu encontro, não se esquecendo de trazer as amoras que ela gostava, ou medronhos, menos corados que a sua facezinha. Durante horas então acamaradavam – e Cristóvão era tão simples que, para a entreter, só sabia repetir a voz dos bichos, dançar pesadamente como um urso. A mãe dizia:

— Cristóvão, Cristóvão, muito tempo gastas com a menina... Olha a lenha...

Olha o gado...

Ele baixava a cabeça, abria a cancela: e ainda se voltava, já longe, para sorrir, com a sua vasta face iluminada.

Ora no meio desta felicidade, começou um murmurar na aldeia. O guardião do convento não perdoara a Cristóvão por ter ele abandonado os seus serviços à ordem: e os frades que passavam, ou que vinham pregar à tarde no adro, diziam depois que, segundos os livros, todos os gigantes tinham pactos com o Satanás. Decerto, este era doce e serviçal, mas assim eram as artes do Demônio, que durante um tempo se faziam doces e afáveis, para melhor se apoderarem das almas. As mulheres, ouvindo isto, ficavam pensativas. Era então em Maio: já as macieiras tinham flor, e as primeiras espigas dos trigos saíram da terra, e os prados enverdeciam. Mas eis que, uma noite, grandes relâmpagos luzem sobre o vale, um trovão rola sobre as serras – e subitamente, com o estalido de lanças entrechocando-se, caiu o granizo. Longo tempo caiu, arrasando o colmo dos casebres, matando os rebentos novos, esmagando as frutas, devastando o gado nos apriscos. De manhã toda a aldeia estava pobre: - e os homens corriam pelos campos, a olhar os destroços, enquanto as mulheres, juntas no adro, carpiam como num funeral. Um padre veio logo do convento, e estendendo a mão, demonstrou que, por causa do endurecimento das almas viera aquela visitação. Por que persistiam eles em acamaradar com um servo do Demônio? Cristóvão, como todos os gigantes, era um emissário de Belzebu: - via-se-lhe o Inferno nos olhos, nas barbas que o fogo crestara, e na sua fingida humildade. Mas eles continuavam a darlhe o pão e o sal, e aí estava que o Senhor lhes devastara as sementeiras. Toda a tarde assim falou – enquanto Cristóvão andava no campo, atando os ramos caídos, secando os charcos, compondo os tetos dos casebres.

Os homens, no entanto, tomavam os seus cajados. O balio, chamado, tocou a trompa para reunir os seus arqueiros. As mulheres escondiam as crianças: outras plantavam cruzes à porta da casa. O abade mandara tocar o sino. E era como quando na aldeia aparecia um bando de lobos.



(continua...)

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