Por Eça de Queirós (1900)
- Para vos intimidar?... Nem o Senhor Arcanjo S. Miguel vos intimidaria descendo do céu comtoda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o Rei, Senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E já que nesta lide não sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejais bem avisado.
O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:
- Bem, bem, a cear, pois! À ceia, Frei Múnio!... E vós, Mendo Pais, deixai receios.
- Se deixo! Não vos pode vir dano que me anseie de cem lanças, de duzentas, que vos surjam acaminho.
E, enquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da mesa - Mendo Pais ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o cinturão da espada:
- Só um cuidado me pesa. E é que, nesta jornada, senhor meu sogro, ides ficar de mal com oReino e com o Rei.
- Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra e comigo!
Este grito de fidelidade, tão altivo, não ressoava no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a pena, esfregou as mãos, exclamou, enlevado:
- Caramba! Aqui há talento!
Rematou logo o Capítulo. Estava esfalfado, à banca do trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magníficas dos seus fortes avós! Numerou as tiras fechou na gaveta à chave o volume do Bardo. Depois à janela, com o colete desabotoado, ainda lançou o brado genial num grave e rouco tom, como o lançaria Tructesindo: -... "de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e comigo E sentia nele realmente toda a alma de um Ramires, como eles eram no século XII, de sublime lealdade, mais presos à sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter, bens, contentamento e vida!
O Bento, que espalhara outro repique desesperado, escancarou a porta da livraria:
- E o Pereira... Está lá embaixo no pátio o Pereira que quer falar ao Sr. Doutor.
Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciência, assim repuxado daquelas alturas onde respirava os nobres espíritos da sua raça:
- Que maçada!... O Pereira... Que Pereira?
- O Pereira; o Manuel Pereira, da Riosa; o Pereira Brasileiro.
Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado Brasileiro por ter herdado vinte contos de um tio, regatão no Pará. Comprara então terras, trazia arrendada a Cortiga, a falada propriedade dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de pano fino, e dispunha de sessenta votos na Freguesia.
- Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos enquanto almoço... E põe outro talher.
A sala de jantar da Torre, que abria por três portas envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do avô Damião (o tradutor de Valerius Flaccus), dois formosos panos de Arras representando a Expedição dos Argonautas. Louças da Índia e do Japão, desirmanadas e preciosas, recheavam um imenso armário de mogno. E sobre o mármore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas Gonçalo, sobretudo de verão, sempre almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio muro por finos azulejos do século XVIII, e oferecendo a um canto, para as preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de damasco.
Quando lá entrou, com os jornais da manhã que não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de paninho escarlate, considerando pensativamente a quinta que, dali, se abrangia até os álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um carão moreno, de olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dois enormes colarinhos presos por botões de ouro. Homem de propriedade, acostumado à Cidade e ao trato das Autoridades, estendeu largamente a mão ao Fidalgo da Torre, e aceitou, sem embaraço, a cadeira que ele lhe empurrara para a mesa - onde dominavam, com os seus ricos lavores, duas altas infusas de cristal antigo, uma cheia de açucenas e a outra de vinho verde.
- Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? Não o vejo desde abril!
- É verdade, meu Fidalgo, desde o sábado em que caiu a grande trovoada, na véspera daeleição! - confirmou o Pereira afagando o cabo do guarda-sol que conservara entre os joelhos.
Gonçalo, numa esfaimada pressa do almoço, repicou a campainha de prata. Depois rindo:
- E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá foram para o eterno Sanches Lucena,direitinhos, como os rios vão para o mar!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.