Por Camilo Castelo Branco (1862)
Era então moda a vinolência, particularmente na academia universitária, onde os mancebos de mais poesia de alma e arremessos de “aspirações grandiosas”, como então se dizia, protestavam contra a estreiteza do âmbito, em que o século lhes apertava as faculdades, dilatando os fictícios horizontes da vida, até onde o vinho da bairrada, a genebra e o conhaque permitiam. Verdade é que nem sempre os ébrios podiam justificar a sua degradação com a necessidade de afogarem os desalentos e dissabores da existência nas copiosas libações. Uns embriagavam-se para darem em espetáculo de admiradores a capacidade do seu estômago, e bebiam por alguidares; outros contavam aos seus amigos uma história tenebrosa de amor, que lhes matara a esperança e os infernara para sempre: a história prefaciava de ordinário a emborcação de uma garrafeira. Os auditores do infausto moço levavam-no depois à cama, onde ele digeria o seu vinho e a sua angústia suprema.
Eu conheci um deles infelizes, que era meu conterrâneo e passava em Coimbra por ter sido ultrajado em sua nobre alma pela mulher de cujos lábios fementidos recebera a morte. Alguns poetas cantaram-no, praguejando a infame que lhe apunhalara o coração. Da história, que ele referia em tom cavo, a verdade nua era que ele viu a sobrinha de um abade numa romaria e ofereceu-lhe cavacas, que ela não aceitou, porque o abade lhes não tirava o olho de cima. Ajunte-se a isto que ele foi à aldeia da Sra. Joaninha com o propósito de lhe falar em fugirem para um deserto; mas a pequena, como andasse atarefada com a matança dos cevados, não lhe deu trela. Por último, o meu vizinho ainda lá tornou em uma noite de esfolhadas; porém, o abade, desconfiado, como pássaro bisnau que era, deu sobre o académico com uma foice roçadoira, e o académico fugiu com tanta pressa e felicidade que algum santo estava a pedir por ele. Em consequência disto é que o bacharel se embriagava, como Alfredo de Musset e Espronceda.
À imitação desta, podia eu contar a história de muitos bêbados ilustres da minha mocidade . Conheci outros que eram poetas orientais. Escreviam do amor das mouras, das volúpias dos serralhos, das acesas paixões dos Árabes. Claro é que num clima temperado, e com os costumes chãos e algum tanto lorpas e lerdos da nossa terra, a imaginativa carecia de espiritar-se com os boléus da embriaguez para sair-se dignamente com uma sestilha asiática. Vinham a fazer ditirambos, que intitulavam Arrobos, ou Coriscos.
Nota
Entre as poesias de Silvestre, achamos uma, datada em 1855, que parece referir-se à época e aos poetas orientais de que vem falando nas suas memórias. Dela trasladamos um fragmento, que vem a ponto:
A esperança mocidade, a plêiade
De génios do Marrare, que é feito dela?
Pulavam em barda, enxame às nuvens
De abelhas, que libavam mel do Himeto,
Disfarçado em cognac; e, então, melífluos,
Como diz não sei quem, que sabe a língua,
Emelavam a gente, isto é, melavam!
E melaram os dulcíssimos meninos,
Quando neles se estava embelezado
O Tejo de cristal e a lua meiga.
Que é deles? Onde o ninho destas aves?
Que implumavam, apenas, e já punham
O fito ma montanha bipartida,
E as cândidas asinhas sacudindo,
Era um gosto comum, um brio pátrio,
Um gosto nacional perdê-los d’olho
E ouvi-los, lá do alto, em trinos destes:
“Doce brisa,
Que desliza,
Pela junça
Do paul,
Traz perfume
Como a aragem
Da bafagem
Duma virgem
De Istambul.”
A compita de cântico, responde
Dalém, doutro poleiro, em sons mais ternos,
Outro bardo, que tem na terra amores:
“Minha Elisa, o teu segredo
Não no sei;
Nem na voz do arvoredo
Adivinhei.
..., querida!, diz-mo cedo,
Diz-mo, querida,
Pela vida!
Se não dizes,
Morrerei!”
No número de ébrios que inspiram compaixão às almas flexíveis estava eu. Quem tiver lido as minhas desventuras e pesado, nas cordas sensíveis do seu peito, as embaçadelas (por não dizer sempre desapontamentos) que apanhei na curta primavera da minha vida, decerto me desculpa do asqueroso vício de que me sinto assaz castigado pelas inflamações de vísceras que a miúdo me atormentam. A imagem de Paula não me parecia como visão que da mulher que nos abandonou enfastiada e talvez chorasse por não poder amar-nos! Deus sabe quanto dói à criatura que amaldiçoamos o tédio que as nossas meiguices, e lágrimas, e ciúmes, lhe causam!
Comecei por beber licor de hortelã-pimenta e acabei no abismo estreme. A minha embriaguez era pacífica e até certo ponto catedrática. Eu me explico. Se o auditório me favorecia, deixava-me ir em discursos sobre a filosofia da história, alternados com outros discursos sobre a história da filosofia. Estas matérias, que a todo o homem, em estado normal, se figuram áridas e insípidas, a mim pareciam-me deleitosas e lucidíssimas; e os ouvintes, salva a lisonja, mostravam-se igualmente admirados que instruídos. Não poderemos inferir daqui o facto de que as ciências de certa transcendência as devemos à alucinação de certas cabeças?, e que o espírito humano, sem o complemento de outros espíritos, cuja imortalidade ninguém discute, há-de sentir sempre a estreiteza dos seus limites? Não discorro agora a este respeito, por que bebo água há dois anos.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.