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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

- Tu, Eulália?! Como assim? - perguntou o desembargador, interdito. - Eu, eu fui quem primeiro lhe falou em Teodora e lhe preparou o coração para cativar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Teodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ela fosse excelente esposa de meu filho e digna de o ser do filho da mais ilustre mãe. Eu enganei-me e ele foi enganado por mim. Afonso apaixonou-se; quando lhe quisemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco há, lhe chamei fraco.

Afonso lançou-se, em pranto desfeito, aos braços de D. Eulália; e, após curtos instantes de ofegante silêncio, exclamou:

- Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um tesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é da sua vida!

- Graças vos dou, meu Criador e Redentor! - clamou a senhora, muito comovida, com as mãos postas. - Grande é o poder que dais ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus!, mas a vossa misericórdia não mede os merecimentos pela aflição com que as mães vos chamam!

E volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infância.

O magistrado e as filhas solenizaram o espectáculo chorando e rindo de contentamento.

IX

Verei se posso repetir, sem inexactidão sensível, o que Afonso de Teive me contou, com seguimento aos sucessos descritos.

"Nenhum rapaz dos meus anos", dizia ele, "exerceria tão dolorosa violência sobre o seu espirito. Jurei comigo de nunca mais repetir o nome de Teodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido dela. Eu não sabia a que porta do Inferno fora bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade que homem nenhum de anos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha família, atava com arames em brasa a máscara da minha agonia, contra a qual minha mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ela me dizia: "Estás esquecido daquela louca, meu filho!, as minhas orações foram ouvidas no Céu", ou quando meu tio, com alegres gargalhadas, me aplaudia, dizendo: "Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!”, então a minha angústia exacerbava-se, e eu, assim que as atenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, deste inútil rogar à piedade divina, erguia-me para escrever a Teodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquelas!”.

"Minha mãe deteve-se um mês em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer consigo para a província; mas a obediência não podia levar tão longe a abnegação.Recordar estes sítios, ver além os horizontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar fortuitamente Teodora, ou alguém que me falasse das felicidades dela, isto apertava-me tanto a alma que eu sentia em mim um desfalecimento de coragem, uma quase precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.”

"Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapares de todas as condições e feitios me arrancariam de mim próprio e levariam em suas folias, ou me habituariam o espírito às consoladoras ocupações do estudo“.

"Minha mãe acedeu prontamente à minha vontade.”

"Fui para a Universidade, muito escasso de preparatórios, e por isso me matriculei em Filosofia. Logo aos primeiros dias conheci que fora um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços velhos, gente ridícula; mas de uma ridiculez que não distrai ninguém. Cada um parecia que trazia dois oráculos na cabeça; antes de expenderem os seus dogmas, punham-se à escuta da inspiração; e, ao abrirem a boca, a própria Minerva das escadas latinas cuidavam eles que se apeava do soco para escutá-los. Zanguei destas criaturas infestas e fui-me inscrever na fila dos literatos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravilhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, enfim, futuras esperanças da Pátria, que bem sabiam que uma diminuta ciência, com muita ousadia, basta para atingir os pináculos sociais. Tinham estes rapazes um jornal.

(continua...)

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