Por Machado de Assis (1872)
Em sua opinião, Raquel estava irremediavelmente perdida. Não era opinião aérea e infundada; ele podia demonstrá-la com argumentos cabais e irrefutáveis. Demonstrou-o efetivamente, durante vinte minutos, com a justa apreciação dos fatos, os dados seguros da ciência, e uma dialética tão cerrada que era impossível fazer-lhe a menor objeção.
Quinze dias depois, entrava Raquel em convalescença.
No sentir dos pais, era Félix o salvador da filha. Fora ele quem lhes restituíra a esperança, e a realizara com os seus bons conselhos e diligente desvelo.
O colega de Félix, para quem o restabelecimento da moça era a destruição de todas as noções médicas recebidas, ficou profundamente surpreendido com esse resultado. Em todo caso, era impossível negá-lo; limitou-se a aplaudi-lo, e quando a moça entrou em convalescença aconselhou os pais que a mandassem para algum arrabalde da cidade, a fim de respirar ares melhores.
Não podia vir mais a propósito o conselho. Lívia mudara-se para as Laranjeiras. A idéia da mudança era de Viana, que um dia a propôs à irmã, e fora aprovado por ela. A casa ficava pouco acima da de Félix, do lado oposto.
Era um prédio elegante, levantado no meio de uma chácara, não extensa nem esmeradamente tratada. Viana, entretanto, organizara um programa de reforma, que prometia executar pontualmente. Seu contentamento parecia não ter limites; além de preferir aquele bairro ao outro em que morava, havia a circunstancia de ir ficar ao pé da casa de Félix, - o que era já meia felicidade, dizia ele.
Lívia aprovara a mudança sob a influência de igual idéia. Aqueles últimos dias tinham sido de plena e deliciosa paz. Seus projetos de futuro eram imensos, delineava uma vida independente de todas as escravidões sociais, vida exclusiva deles, cheia de todos os prestígios da poesia e do amor. Às vezes receava que esses sonhos fossem apenas sonhos. Ainda assim não os dera por nenhum preço deste mundo.
Estavam então nos primeiros dias de outubro; o casamento fora marcado para meado de janeiro. Marcado, entenda-se bem, apenas entre os dous, porque Félix conseguira da viúva a promessa de que a notícia seria dada nas vésperas do acontecimento.
— Mas a razão deste segredo? perguntou Lívia depois de lhe prometer o que pedia.
— Um capricho.
A razão verdadeira era a vacilação do seu espírito; mas a que ele deu contentou perfeitamente a moça.
— Se eu tivesse o teu coração, disse ela, desconfiava desta exigência; mas, vê lá, eu creio em ti.
Estavam sós na chácara; Viana, fiel ao seu programa de não perturbar os dous namorados, foi meditar a alguma distância nas reformas que pretendia fazer. Caminhavam os dous calados e distraídos, ou melhor, concentrados em si mesmos. De repente a viúva levantou a cabeça e disse como continuação das suas anteriores palavras:
— Há contudo ocasiões em que esta confiança parece abalar-se, não porque eu duvide de ti, mas porque duvido do destino. Já te disse que sou supersticiosa, - direito das mulheres e das crianças. Estremeço algumas vezes, quando encaro o futuro, e, sem saber por que, pergunto a mim mesma qual será o fim de tudo isto. Desmaios apenas, e raros, de um coração que ambiciona, talvez, mais do que poderia obter.
— Não te parece que eu esteja emendado? disse Félix sorrindo. Há quantos dias não há sequer...
— Cala-te! interrompeu Lívia tocando-lhe os lábios com os dedos. Tenho medo de te ouvir falar assim.
E depois de um instante de silêncio:
— Não é o teu coração que me faz tremer; o teu coração é bom. Não é também o teu espírito, apesar de caprichoso, visionário, inconstante. Receio do futuro, à vista do passado.
— Do passado? perguntou Félix estacando o passo.
Lívia suspirou.
— Que houve de mau no teu passado? continuou o médico fitando nela um olhar perscrutador.
— Tudo.
Havia perto um velho sofá de vime. Lívia encaminhou-se lentamente para ele e sentou-se. Félix contemplou-a algum tempo do lugar em que ficara. Já não sorria; a dúvida ensombrava-lhe os olhos. Enfim, deu alguns passos e parou em frente dela.
CAPÍTULO XI / O PASSADO
— SEREI INDISCRETO perguntando que passado foi esse? disse Félix depois de alguns instantes.
— Oh! descansa! Não me pesa nada na consciência; mas no coração...
— Amaste alguém?
— Amei a meu marido.
A esta resposta de Lívia seguiu-se novo e longo silêncio. A memória do passado a que ela tão misteriosamente aludira parecia doer-lhe na alma. Arfava-lhe o seio, e as mãos, em que o médico amorosamente tocou, estavam geladas e trêmulas.
— Não acreditas que eu possa compreender-te melhor que os outros? perguntou finalmente o médico.
— Talvez não.
Félix fez um gesto de despeito. A moça arredou o vestido e abriu espaço no sofá, onde o médico se sentou a um sinal dela.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.