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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Certo dia recebi na minha repartição a intimação para ser jurado.

Fiquei contente, porque ia desempenhar uma alta função social.

No dia aprazado, para lá fui e, indagando onde era o tribunal, quase fui recebido à pedrada pelos meirinhos , escrivães e mais gente da justiça. Curiosa maneira de receber um ilustre juiz de fato!

Sentei-me em uma cadeira e esperei o juiz pacientemente. A sessão foi aberta com todas as formalidades e fui sorteado para fazer parte do conselho de sentença.

O promotor falou e, depois, o advogado da defesa fez a sua falação. Que curioso advogado! Tinha uma voz de sino e uma grande consideração pelos conhecimentos dos jurados. Em dado momento, explicou:

– Meus senhores, o réu é um benemérito. Como vigia da estrada de ferro retirou da linha um calhau. Calhau, meus senhores, é uma pedra grande.

Os debates ainda não tinham terminado às cinco horas e os meus colegas de júri reclamaram jantar, porque a máxima preocupação dos jurados é comer à custa do governo.

Veio o jantar e eu, escolhido presidente, me sentei à cabeceira da mesa. Era o mais moço.

Após a sopa, nós nos servimos de peixe à brasileira.

Um dos do fim da mesa, tendo comido algumas garfadas, exclamou:

– Achei uma barata.

Ao ouvir este senhor tão bem educado, um outro jurado disse:

– Mas está muito bom.

Careta, Rio, 21-8-1915.

A GRATIDÃO DO ASSÍRIO

Meu caro senhor Assírio , eu lhe tinha a perguntar se de fato está satisfeito com a vida.

Nós nos havíamos introduzido no elegante porão do Municipal e falávamos ao restaurante chic com água na boca. Este não tardou em responder:

– Estou, meu caro senhor; estou, imagine que não há dia em que não me veja abarbado com um banquete.

– É assim?

– Pois não, meu digno senhor. Um poeta publica um livro e logo encomendamme um banquete com todos os “ff’ e rr ; os jornais publicam a lista dos convidados, ao dia seguinte, e o meu nome se espalha por este país todo. Se acontece alguém escrever uma crônica feliz, zás, banquete, retrato e nome nos jornais. Se, por acaso...

– Notamos, interrompi eu, que nas suas festanças não há mulheres.

– Já observei isto aos dilettanti de banquetes e, até, lhes ofereci organizar um quadro de convidadas.

– Que eles disseram?

– Penso que eles não querem rivalidades femininas. Já as têm em bom número masculinas.

– E as flores?

– Com isso não me preocupo, porque, às vezes, elas me servem para meia dúzia de banquetes. Os rapazes não reparam nisso.

– E as iguarias?

– Oh! Isso? Também não vale nada. Basta uns nomes arrevesados, para que os nossos Lúculos comam gato por lebre.

Mas a minha maior gratidão é...

– Por quem?

– Pela Secretaria do Exterior. Um cidadão é promovido de segundo secretário a primeiro, banquete; um outro passa de amanuense a segundo secretário, banquete...

Herança do Rio Branco!... Outro dia, como o Serapião passasse de servente a contínuo, logo lhe ofereceram um banquete.

– Os serventes?

– Não; todos os empregados. Que gente boa, meu caro senhor.

Deixamos o senhor Assírio cheio de uma terna beatitude agradecida por tão bela gente que se banqueteia.

Careta, Rio, 11-9-1915.

EX-HOMEM

Não há nada mais vulgar que um popular dizer para o seu ídolo: “Este é o meu homem”.

Tem havido muitos que o sejam assim tratados e, na república, todos nós sabemos que Floriano, Pinheiro e o Senhor Irineu Machado têm sido assim tratados.

Acontece, pois, que certos desses homens dessa forma assim tratados, de uma hora para outra mudam de orientação, avacalham-se, como se diz vulgarmente, e passam de um extremo a outro, sem nenhuma explicação.

Vejam o caso desse senhor, cujo nome não cito.

Ele era o paladino dos desejos do povo; ele era o seu defensor extremado; ele era o demagogo , no bom sentido da palavra. De um instante para outro, passa a ser justamente o contrário.

Interesses, satisfações à sua vaidade, vontade de agradar a alguma beldade, exigências do automóvel, fazem-no escravo dos poderosos.

Este homem que vivia cercado, animado, cheio de pedidos e dedicações; este homem que até toda a gente tinha prazer em morder93, hoje, ninguém o morde, hoje ninguém o procura, hoje ninguém quer saber dele; entretanto, ele hoje está mais rico e mais poderoso.

Os pobres, os ricos, os turcos, os chineses, os árabes e coptas, todos que o procuravam, não o procuram mais.

Aquele ajuntamento que se fazia nas arcadas do jardim, próximo do Hotel Avenida, atualmente não se verifica mais.

É uma desolação de abandono, quando ele passa.

Há dias eu conversava com um velho correligionário de semelhante homem e perguntei:

– Por que I. anda tão abandonado?

– Você não sabe o motivo?

(continua...)

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