Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Não menos que o saber e que a piedade,

A tua fronte majestosa adorna,

Inveja e desespero de almas baixas,

Que em vão se esforçam por lutar contigo,

Inda um louvor faltava, ensejo é este

De o colher vicejante e de um só golpe

A turba confundir dos teus contrários.

Em que lhe pese ao venenoso dente

Que te morde no sombra, a história tua

Em lâminas escreve de ouro fino,

Com refulgentes letras de diamante,

A justiça do tempo. Eu vejo, eu vejo

Os séculos passando respeitosos

Ante o nome do herói, que resoluto

Os raios empenhou do seu ofício

Para o orgulho abater, a audácia, a inveja.

E entre as bênçãos de um povo amado e amante

Ir no seio pousar da eternidade”.

XI

Aqui chegando, o orador estaca;

E o vão prelado, que escutara alegre

Tão pomposas e amáveis esperanças,

Os braços, que já tinha levantados,

Ao orador estende; este os recebe,

E apertados os peitos contra os peitos,

Alguns minutos ficam; mas, cessando

Esta doce efusão de ambos os cabos,

O reitor do discurso o fio toma:

“Depois de um sério, dilatado exame

Do intrincado conflito, em que empenhaste

Contra um duro rival todas as forças

Que a natureza, que o saber te deram,

O congresso teológico resolve,

Para servir-te, uma sentença justa.

E por que tenhas o propício ensejo

De exercer a vitória mais brilhante

Que a um guerreiro cristão jamais foi dada,

Por que venças melhor o teu contrário

Lançando-lhe o perdão da culpa sua,

Suspender manda a excomunhão lançada

E a causa sujeitar ao régio voto”.

XII

A tal nova, o prelado empalidece,

A vista perde, as pernas lhe bambeiam,

No regelado lábio a voz lhe expira,

“E caiu como cai um corpo morto”.

Desenlace fatal! Ao vê-lo, um grito

Magoado foge dos amigos peitos;

E enquanto a comissão, entre o sussurro,

Sorrateira vai dando aos calcanhares,

A desforrar-se do perdido tempo

No tardio jantar, os reverendos

O prelado conduzem para a cama

E um físico chamar mandam à pressa.

XIII

Vê a Gula a vitória da inimiga,

E, a figura do físico tomando,

À casa voa do abatido Almada,

E depois de operar um breve exame

Aos aflitos amigos afiança

A vida do prelado; e sem deter-se

Com escrever fantásticas receitas,

Nem pedir chochas drogas de botica,

Manda que o cozinheiro sem demora

Uma gorda galinha ponha ao fogo,

E a tempere, segundo as regras d’arte.

Prontamente obedece o fiel servo,

E pouco tarda que um guloso aroma

A casa toda invada, e subtilmente

Na atmosfera da alcova se derrame.

Prodígio foi! Nos lábios do doente,

Como alvejar costuma no horizonte

Dentre as sombras noturnas a alvorada,

Um sorriso desponta; e pouco a pouco

As pálpebras se vão arregaçando,

Quais as cortinas de nublado inverno

Que, à criadora luz do sol nascente,

A verdura da serra e da campanha,

E enfim o rosto da azulada esfera,

Lentamente esvaindo-se descobrem.

XIV

Neste ponto na alcova entra o copeiro

A galinha trazendo e o grosso caldo;

E o prelado sentando-se na cama,

A convite de todos logo bebe

O caldo em quatro goles, e trincava

O tenro peito da ave, quando a idéia

Do congresso fatal lhe sobe à mente;

Do peito arranca um lânguido suspiro,

E, reprimindo as lágrimas exclama:

“Ah! se eu de todos esperar devia

Tão cruel decisão, reitor ingrato,

Tu só me espantas, único me feres,

Que eu tinha o voto teu e o teu abraço,

E nisso confiado me entretinha

Em saborear a próxima vingança.

Agora, que mortal salvar-me pode

De tão grande vergonha? Oh! quem dissera

Que o destemido Almada, cujo nome

Nas asas voa da ligeira fama,

Os mares assustados atravessa,

Lisboa assombra e desnorteia o mundo,

A tamanha baixeza chegaria

Que os alheios esforços mendigasse?”

XV

Um profundo suspiro a voz lhe embarga;

E enfim rompendo dos fulmíneos olhos

Precipitadas lágrimas lhe banham,

Pela primeira vez, as faces pálidas,

Que inda nessa manhã vermelhas eram.

Correm todos ao leito a consolá-lo,

E ali lhe juram que a final vitória,

Ou eles morrerão naquela empresa,

Ou ela há de caber ao grande Almada.

Estavam neste ponto, quando a Ira,

Invisível entrando, e vendo a Gula,

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →