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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— A filha de Oriçanga, maravilhada de ouvir nos lábios do estrangeiro a língua de seus pais, lhe responde comovida:

— Tu te achas na taba de Oriçanga, meu pai e cacique dos Chavantes, em cujo poder caíste prisioneiro. Aqui ficarás até que sarem tuas feridas e recobres a saúde e as forças.

— Para depois ser conduzido ao sacrifício, não é assim, filha de Oriçanga?

— Oh! quem to disse! atalhou ela vivamente, e pensou consigo aterrada: acaso me teria ele ouvido?

— Oh! sim! bem o sei; continua Gonçalo animando-se; sei que me conservam a vida para depois festejarem com a minha morte e consagrarem com meu sangue cobardemente derramado tuas bodas com... mas não o conseguirão... com estes dentes ainda posso arrancar as ataduras destas feridas e fazer correr por elas todo o meu sangue, para que o não derrameis em vossas festas abomináveis.

— Ah! não! não faças tal; exclama aflita. Acalma-te; nenhum perigo te ameaça... mas é lástima que sejas, como pareces, um filho dos imboabas, desses cruéis inimigos e perseguidores da raça dos adoradores de Tupá.

— Não o creias, filha de Oriçanga: eu sou como vós outros filho das selvas livres; sei encurvar o arco e despedir a flecha de meus antepassados, falo, como vês, a tua língua, e só conheço o imboaba para odiar-lhe e beber-lhe o sangue.

Gonçalo por uma prudente astúcia entendeu que devia nesta conjuntura ocultar a verdade, e nem ele mentia totalmente, pois que voluntariamente se havia seqüestrado da sociedade para viver entre os selvagens. Ao ouvir estas palavras Guaraciaba não pôde conter um grito de surpresa e satisfação.

— É verdade o que acabas de dizer, estrangeiro? quê! tu não és imboaba!... tu és dos nossos! nesse caso tranqüiliza-te; nada tens a temer aqui, é a filha de Oriçanga quem responde pela tua vida.

— Anjo, exclama Gonçalo com voz sumida e angustiada, para que queres poupar-me a vida?... Ah! tu não sabes quanto ela me é odiosa e pesada... Mas tu não és por certo uma mulher... tu és um manitó celeste enviado por Tupá para proteger-me e consolar-me... ah! deixa-me beijar essa mão generosa...

— Cala-te, interrompeu ela levando-lhe os dedos à boca; o pajé não quer que fales, pois isso te fará muito mal. Ah! imprudente que eu fui em te fazer assim falar por tanto tempo.

A primeira claridade do dia já vinha frouxamente penetrando pelas frestas da cabana. As selvas começavam a despertar aos mil rumores que faziam uma multidão de aves esvoaçando, piando, grasnando ou gorjeando entre os ramos orvalhados. Nuvens de papagaios, araras e periquitos atravessavam o espaço enchendo os ares de sua incessante algazarra; e enquanto o tucano, vaidoso de sua vistosa plumagem, fazia ouvir seu rouco e ingrato grasnar, o sabiá do alto da peroba secular desprendia seus cadenciados gorjeios. Guaraciaba desperta o pajé adormecido, e anuncia-lhe, sem disfarçar sua alegria, que o estrangeiro recobrara os sentidos, e com a maior instância lhe pede e recomenda que se desvele em tratá-lo com todo o zelo que exige o seu estado melindroso.

Andiara votava paternal afeição à filha do cacique, sobre cuja infância velara desde o berço com a mais terna solicitude. Tendo ela ainda em tenra idade perdido sua mãe, a linda e danosa Naumá, Andiara, parente e amigo fiel e extremoso de Oriçanga, a cuja família julgava estar ligada a glória da nação dos Chavantes, tomou a si o cuidado de educar e desenvolver os dotes do corpo e do espírito da gentil menina, última progênie de uma raça de heróicos caciques, e em quem repousava toda a esperança da tribo. Ele a tinha sempre junto a si, e a conduzia pela mão em seus giros pelas florestas; ele entretecia com suas próprias mãos vistosos canitares de plumas ondulantes para sombrear-lhe a fronte, e lhe engastava o cinto da araçóia de palhetas de ouro nativo e de brilhantes pedrarias. Também a exercitava na arte de encurvar o arco, de brandir o tacape, de fender com os ombros as águas das torrentes, ou impelir rapidamente com o remo uma piroga a resvalar pelas ondas azuladas de seu rio natal; ensinava-lhe as danças e cantigas sagradas, e os hinos de guerra, dando-lhe uma educação toda varonil na esperança de torná-la um dia uma heroína capaz de elevar a nação ao mais subido auge de glória e de grandeza. Guaraciaba por seu lado respeitava e queria ao velho pajé como a um outro pai; com docilidade e submissão filial obedecia às suas ordens, escutava os seus conselhos, e retribuía-lhe com afetuosa gratidão os afagos e cuidados que dele recebia.

Andiara pelo muito afeto que tinha à gentil menina, ou por uma natural simpatia, deixou-se também penetrar do interesse que a ela inspirara o malferido estrangeiro, e esforçou-se com desvelo e ardor em restituir-lhe a vida e a saúde.

(continua...)

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