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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

VIOLANTE – Que fazenda é essa, Braz? suponho que não será a minha.

MÁRIO – Também não aceito.

BRAZ – Então és incontestável.

MÁRIO – Não caio nessa; fora da cidade só casado com Irene. VOZES (Dentro) – Mário!... Mário! Mário!...

CENA VIII

BRAZ, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, MÁRIO e CASIMIRO

CASIMIRO – Mário, aí estão à porta dez ou doze cavaleiros teus amigos...

bradam por ti... não ouves?

VOZES (Dentro) – Mário! Mário!

MÁRIO – Passeio oficial de sportemen... parece extraordinário e singular em S.

Cristóvão... (Luta interior) tentação diabólica... eu tinha dado a minha palavra!

VOZES (Dentro) – Mário! Mário!

MÁRIO – Hipogrifo a brilhar... vou... não vou... (Vai e volta) CASIMIRO – Há de ir... deves cumprir a tua palavra...

MÁRIO – Sou outro, porque vou ser outro... consumou-se a revolução... não

vou!

VOZES (Dentro: batem com os açoites nas janelas) – Mário! mandrião! vem!

MÁRIO (Correndo à janela) – Relache par indisposition: Hipogrifo constipou-se.

FIM DO QUARTO ATO

ATO V

A mesma sala do ato quarto

CENA I

CLEMÊNCIA e BRAZ, que chega

BRAZ (Grande cumprimento) – É de mestra!... agora, aconteça o que acontecer, não vá pedir-me em casamento; porque se arrisca à negativa certa.

CLEMÊNCIA – Tão feia ou má sou eu?

BRAZ – Nem feia, nem má; é porém um demoninho de arteira.

CLEMÊNCIA – Veremos nos resultados do artifício. Aqui todos guardam segredo: lembre-se que anteontem se declarou do meu partido...

BRAZ – Bati bandeiras aos seus pés, estou rendido, hoje mil vezes mais.

CLEMÊNCIA – Eu o esperava ansiosa para assegurar-me da sua discrição...

BRAZ – Beijo-lhe as mãozinhas pela dúvida.

CLEMÊNCIA – Agora... desculpe-me... devo completar o meu toilette...

BRAZ – Bata as asas e voa já ao paraíso do espelho. (Vai-se Clemência)

CENA II

BRAZ e CASIMIRO

CASIMIRO – Braz... Braz... então?... falaste-lhe de novo?...

BRAZ – Tranqüiliza-te, Casimiro! estás que pareces desvairado! para mim são favas contadas; anteontem falei-lhe pela primeira vez e sabes já que houve trovoada e chuva; isto é, rugidos de cólera e lágrimas de dor...

CASIMIRO – Coitadinha!

BRAZ – Ontem de novo ataquei a fortaleza, e, como te disse, Irene defendeu-se com reticências... monossílabos... e enfim com um “saberá mais tarde” assobiado a tremer, que me fez ficar sabendo mais cedo...

CASIMIRO – Confia talvez demais na minha felicidade...

BRAZ – Tão seguro estou de conseguir o meu fim, que, obtida a permissão da mãe e do irmão de Irene, já alcancei todas as dispensas admissíveis para o casamento... em poucos dias teremos a boda.

CASIMIRO – Excelente amigo!... mas hoje?... tornaste a falar-lhe?...

BRAZ – Não há duas horas; Irene é como todas as moças; está morrendo por casar; mas faz-se de boa para ser muito rogada; insisti na história, e ela sorriu-se vaidosa... corou... vês?... foi como se começasse dizendo; “eu...” e pontinhos: depois suspirou... vês?... foi como se acabasse dizendo: “quero” com ponto final et coetera.

CASIMIRO – Mas... como, suspirou... isso já e muito, e todavia... pode não ser coisa alguma.

BRAZ – Enganas-te: isso é sempre alguma coisa. Irene caiu no laço; juro-te que desde dois dias o seu olhar, a sua fisionomia, os seus enleios, a sua respiração muitas vezes comprimida, estão denunciando noiva.

CASIMIRO – É verdade que ela ontem falou-me com uma perturbação...

BRAZ – Queres mais claro?

CASIMIRO – Eu queria... o sim decisivo...

BRAZ – Também eu quis, pedi-o, e exigi-o ainda há pouco.

CASIMIRO – E ela?...

BRAZ – Quis falar... hesitou... apertou-me a mão, feliz Casimiro! e enfim, depois de muita confusão... rosas de pejo nas faces... agitação palpitante do seio, et coetera, afortunado Casimiro! ela murmurou a custo: “Poupe-me ainda... farei por chegar um pouco cedo para o banquete de dª. Violante... e lá... se nos acharmos sós... o senhor me ouvirá... e ficará contente de mim.”

CASIMIRO – Oh! ela disse isso? que tu ficarias contente dela?... então é certa a minha dita, Braz! é a conseqüência...

BRAZ – Lógica, está claríssimo: o contrário fora absurdo et coetera; e por essa razão corri a esperá-la aqui; entendi-me com o irmão, que as acompanhará até a escada da varanda, e voltará depois.

CASIMIRO – Ah, meu Braz!

BRAZ – Traduzo ou interpreto: desejas ouvir a minha conferência com Irene.

CASIMIRO – Se fosse possível...

BRAZ – Vaidoso! vaidoso! é uma traição que a tua noiva me agradecerá; quando ela chegar, entra no teu gabinete, e da porta entreaberta ouvirás tudo. Feliz

Casimiro! eu ponho-me de sentinela. (Na janela) CASIMIRO – Muito padece quem ama!

(continua...)

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