Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Não havia maligna intenção nos gracejos dos três amigos; mas realmente era pouco generoso, e de mau gosto em mancebos ricos zombar do que era manifesta prova dos poucos recursos pecuniários da vítima do ridículo.
Risadas acompanhavam, no entanto, os remoques provocadores de reação que o Belo Senhor não costumava conter.
Mas então ele comia, e não falava.
Agostinho Fuas tomou por sua vez a palavra e disse:
- O Belo Senhor está hoje triste, silencioso e abatido: querem saber por quê? Há um mês que apaixonado, perdido de amor pela Rosinha Feitiço, a mais bela dama da Casa da Ópera, cantava-lhe de noite modinhas à porta e de dia mandava-lhe ramalhetes de rosas, e de não-medeixes; mas coitado! soube ontem que eu sem modinhas nem flores, e só com uma chave, que tirei da minha bolsa, abri a porta que não lhe abriam, e tomei-lhe a namorada!... Tem paciência, Belo Senhor! espera dois ou três meses pelo termo do meu capricho: eu te pus no purgatório, mas não te condenei ao inferno.
Gargalhadas gerais agravaram a zombaria de Agostinho Fuas, tanto mais cruel, quanto era absolutamente expresso de verdade.
O Belo Senhor por acaso ou por abafado ímpeto de ira cobriu de pimentas de cheiro uma garfada de rim e comeu, parecendo regalar-se.
Agostinho Fuas, um pouco picado da indiferença da vítima, tirou do bolso uma carta e mostrou-a aos companheiros.
- Ai está um bilhete que a Rosinha me escreveu hoje...
- Mas que diabo! ela escreve Gostinho em vez de Agostinho? disse Afonso Martinho.
- É assim que me trata: vê agora a assinatura...
- Feitiço...
- É como eu a chamo. E tu, Belo Senhor; não queres ver a carta da Rosinha Feitiço?
Era demais.
O Belo Senhor que inalterável não tinha levantado os olhos do prato saboreou o último pedaço de rim assado, encheu de vinho o copo, bebeu vagarosa e deliciosamente, depôs o copo na mesa e disse com perfeita serenidade:
- Agora eu.
Todos os olhos se fitaram no Belo Senhor que, voltando-se primeiro para Antônio Pereira, disselhe:
- Antônio Pereira! de hoje a oito dias cearemos nesta taberna profusa e grandiosamente!... convide a todos os presentes e a mais alguns amigos, mas eu juro que tu, Antônio Pereira, hás de pagar a ceia.
- Eu?... aposto que não!...
- E nessa noite de ceia, de hoje a oito dias, eu me apresentarei de ricas fivelas de ouro nossapatos, e tu, Afonso Martinho, hás de pagar as fivelas.
- Eu?... também aposto que não!
- E tu, Domingos Lopo, hás de pagar a casaca nova com que me apresentarei a honrar a ceia!
- Terceira aposta!... juro que não.
- Quanto a Agostinho Fuas, não pretendo que ele me pague coisa alguma; pelo contrário, sereieu quem o há de felicitar com a mais agradável surpresa.
- Explica-te, Belo Senhor!
- Impossível! será o encantamento da ceia; mas é segredo que guardarei comigo até de hoje aoito dias.
- São, portanto, quatro apostas, disse Antônio Pereira; vê em que te metes, Belo Senhor!
- Não faço aposta alguma; respondeu este: contento-me com a ceia profusa, com as fivelas deouro, com a casaca nova e com o surpreendente efeito do meu segredo.
Levantaram-se todos para sair.
- A propósito! exclamou o Belo Senhor; quero saber a hora precisa da ceia: Antônio Pereira é quem deve marcar a hora, porque as despesas correrão por sua conta.
- O Belo Senhor paga-nos aqui boa ceia, de hoje a oito dias, às nove horas da noite precisas, disse Antônio Pereira.
- Muito bem! de hoje a oito dias, 20 de julho de 1783, às nove horas da noite em ponto, disse oBelo Senhor.
E logo acrescentou:
- Daqui até lá nem mais meia palavra sobre este assunto.
E todos se retiraram da taberna a rir e a gracejar, como amigos que eram.
Passaram-se os oito dias do prazo marcado, chegou a noite de 20 de julho, e ainda antes das nove horas já se achavam reunidos na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, além de alguns outros todos os mancebos que ali tinham ceado oito dias antes.
Faltava somente o Belo Senhor.
Havia curiosidade como que ansiosa.
Nenhum dos convidados ousava supor que ele faltasse ao prazo e à ceia.
A questão do pagamento da ceia, das fivelas de ouro, da casaca nova, e enfim a surpresa prometida a Agostinho Fuas preocupavam a todos.
A ceia já estava servida e era na verdade profusa para a habilidade culinária de Manoel Gago, o dono da taberna, que até então se limitara a dar aos seus fregueses peixe frito, camarão, chouriço e rim de vaca.
Os nossos leitores dispensam a descrição da ceia.
Ao toque de nove horas entrou pela taberna o Belo Senhor trajando fina casaca nova e trazendo nos sapatos ricas fivelas de ouro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.