Por Eça de Queirós (1940)
A greve veio, a propósito, oferecer-lhes um meio de desforra. Logo que viram que ela se espalhava, tomava proporções revolucionárias, disparava os primeiros tiros, a canalha juntouse-lhe com entusiasmo. Em Nova Iorque, em Chicago, em Pittsburgh, apareceram logo chefes agitadores que impeliram as massas descontentes à revolta. O que queriam eles? Nada. Destruir, vingar-se vagamente. E tanto isto é assim que em todos os pontos mais atacados a revolta teve um carácter bruto de violência ao acaso, destruíam, queimavam, abatiam sem discriminar, na excitação da cólera satisfeita, sem outro fim do que dar cabo de uma sociedade onde se achavam mal. Em Pittsburgh, por exemplo, a destruição foi estúpida e bestial: escangalhar, escangalhar! – era o programa. Certas barbaridades extraordinárias revelam a loucura de uma plebe insensata: em Pittsburgh, depois de aprisionar destacamentos de Guarda Nacional, fechavam-nos em casas e procuravam queimá-los vivos! Ao mesmo tempo, e por toda a parte, se saqueava e se assassinava! E o Governo teve que empregar contra esta insurreição da cólera uma repressão de tirano. Colocava-se artilharia nas ruas e varria-se a canalha! As correspondências que devem conter os terríveis detalhes da insurreição ainda não chegaram à Europa; mas receia-se que o desastre, a destruição de propriedades, a perda de vidas, serão maiores do que os telegramas indicam, e que esta fatal revolta seja mais terrível ainda por ser um sintoma e mostrar a existência de um elemento que pode causar aos Estados Unidos, tarde ou cedo, uma pavorosa crise social.
Nos últimos três dias tem-se aqui recebido, da Índia, noticias de um carácter aterrador. A fome ameaça, com uma intensidade crescente. Só em Madras e em Mysore, o Governo está dando rações mesquinhas (por não poder ser doutro modo) a um milhão e duzentos mil esfomeados! E a proporção da mortalidade cresce de um modo que, se isto dura por mais oito meses, a população do Sul da Índia sofrerá uma diminuição sem antecedentes na história.
A opinião, em Inglaterra, está-se preocupando muito com o aspecto da política francesa. O dia das eleições ainda não está fixado; mas as dificuldades crescem para o Governo, porque a famosa aliança dos conservadores falhou. Os legitimistas estão furiosos, porque vêem que a política do Governo tende para uma vitória eleitoral dos bonapartistas; os bonapartistas gritam contra o marechal, por ele não permitir que, antes de 1880, se reclame abertamente o império; os orleanistas estão desinquietos com a influência dos bonapartistas – que poderia, no caso do triunfo do império, resultar num segundo desterro para os príncipes de Orleães – e queixam-se da parcialidade que o ministério mostra contra eles na escolha dos candidatos oficiais. Todos gritam, e no entanto os republicanos ganham em força, em união, em táctica e em influência. Daqui vêm os boatos recentes de novo golpe de estado. Mas em favor de quem? E aqui que eu vou surpreender os leitores da Actualidade... «em favor do filho de Mac Mahon!» E pelo menos o que se diz em Paris e o que se imprime em Londres! No entanto, a mim parece-me que «mac mahonismo por direito hereditário» e muito cómico para poder ser verosímil.
A Whitehall Review, o mais elegante jornal hebdomadário de Londres, um órgão de alta sociedade, publica no seu último número, num lugar proeminente, a declaração seguinte:
«Pede-se-nos para declarar que Sir Chames Tempest se valerá dos únicos meios que a Igreja Católica lhe fornece para se lavar da desonra que foi lançada sobre ele e a sua família, e que intentará uma separação judicial. Igualmente se nos pede para declarar que Sir Charles Tempest não foi a Paris em perseguição dos fugitivos, mas ficou tranquilamente na sua propriedade de Northamptonshire, sendo o último a saber do que se passava –tão pouco suspeitava o infeliz gentleman a existência do mal.»
E o jornal acrescenta, como por sua conta e risco: «A esposa infiel e o seu amante estão em Paris. Todas as simpatias estão com o infeliz Sir Charles.»
Este extraordinário parágrafo, que tão estranho parece aos nossos hábitos meridionais, é a conclusão de um facto que tem causado grande escândalo. É simples em si, como verão. A mulher de Sir Tempest fugiu (como tantas outras fogem hoje em dia) com um amante – ele mesmo casado com uma adorável senhora de vinte e dois anos, íntima amiga da princesa de Gales.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.