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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Ao outro dia, quiz mandar á Anninhas umat placa de cinco tostões — escrevendo-lhe, como ou tr'ora Armando : ahi cae o preço do teu amor e do, meu insulto. Mas receiou os musculos formidaveis do gymnasta, e, furioso, descreu das mulheres. — Só a Alte não trahe, Arthur — disse-lhe um dia Taveira.

E Arthur lançou-se desesperadamente na Arte. Considerou-se cynico á Musset e á Byron e quiz, como elles, dar á sua vida uru delirio romantico : recomeçou a embebedar-se. E uma manhã que recolhia ainda estremunhado d'um lupanar,—como convinha a um irmão de Rolla encontrou em casa uma carta do Silveira : na vespera, em quanto elle, no Garrano, com Taveira, brindava á Morte e á Orgia, seu pae, de repente, ao entrar na Assembleia, tinha cahido morto para o lado, murmurando apenas : Oh, meu filho !

O pobre moço que amava o pae, desmaiou, e depois das primeiras lagrimas, ficou aterrado. Alli estava, só na vida, sem recursos para continuar a formatura, tendo de deixar Coimbra, o Cenaculo, a vida poetica . . .

Por conselho do Silveira, foi a Ovar vender em leilão a mobilia, algumas pratas da casa. Passou alli uma semana amarga, na hospedaria, coberto de luto, oom os olhos vermelhos como carvões, fuman do cigarros, fazendo e desmanchando planos, ou, com o nariz contra a vidraça, vendo cahir a chuva miudinha de Margo. Uma noite, emfim, o delegado Pimenta, que muito sollicitamente dirigira o leilão, veio trazer-lhe quarenta e cinco libras em ouro. Ao vêr aquella riqueza, rebrilhando sobre o panno verde da mega, uma esperança desordenada levantoulhe a alma. Com uma economia sagaz, poderia viver dous annos em Coimbra ; durante esse tempo, lec cionando, fundando uma Revista, crearia recursos regulares . , . E apesar de chorar ainda ao olhar para o daguerreotypo do pae, começou a gozar instinctiva,mente da idéa da sua liberdade — sem familia que lhe tragasse auctoritariamente um destino e com dous fortes cartuchos de dinheiro na maleta.

Voltou para Coimbra — e d'ahi a duas semanas pagava aos lyricos do Cenaculo uma orgia na tia

Poncia ; depois, comprou todas as obras de Victor Hugo e um revólver ; fez um fato, guitarreou, jogou a batota, alugou caleches para ir a Condeixa jantar no Castello com o Taveira.

No acto seguinte, levou outro R. E pelas ferias, quando Coimbra começava a ficar deserta, achouse com oito mil réis no bolso.

Foi então que se lembrou das tias, que nunca vira e que viviam em Oliveira d'Azemeis. Eram duas, Ricardina e Sabina ; a mais velha, a tia Lóló' morrera tisica, um anno depois do marido.

Escreveu-lhes uma carta pathetica, com phrases á Musset, pedindo ás duas velhas que o ajudassem n'esta grande batalha da vida, em que elle se sentia fraquejar, porque era d'esta geração nervosa e pallida, que necessita o amparo d'uma ternura de anjo . . . »

Como a resposta tardasse — partiu desesperado para Ovar, para a mesma hospedaria, como se esperasse vêr outra vez scintillar sobre o panno da mesa, o ouro d'outro punhado de libras.

Alli, o seu velho amigo, o advogado Silveira, que rompera com o Campeão e ia casar com uma viuva rica que fascinara em Espinho, irritou-o com conselhos praticos, solidamente burguezes : « a vida não era poesia, era necessario tratar do pão ! » Mas on de ? Como ? Ir rabiscar papel para casa d'um tabellião ? Ir vender cheviotes a um balcão do Porto

— Era imbecilisar-me para sempre, annullar as minhas faculdades, Silveira !

Uma manhã, por fim, chegou a carta das tias. Era breve, n'uma letra bonita de mulher :

Meu querido sobrinho.

« Cá recebemos a tua carta, que mostra que tens « muito talento e nos fez chorar a todos, que até o Albuquerquezinho pareceu muito affectado. eu « não teria felicidade maior que poder ajudar-te « para a tua formatura, pois se vê que tens voca ção para Doutor e haverias de fazer boa figura. « Mas, infelizmente, como tu não ignoras, pois o

« mano Manuel estava bem ao facto de tudo, nós

« pouco temos, apenas o bastante para alguma de-

« cencia. nu porém és do nosso sangue e por isso te

« posso dizer que n'esta casa has-de encontrar bom

« agasalho porque até temos um quarto com alguma

« mobilia e podia servir para ti e mesmo a mana

« Sabina já lá anda a escarolar, pois esperamos que

« acceites este offerecimento, que é feito do cora-

« cão, tanto mais que o snr. Vasco diz que agora são « ferias em Coimbra. Escreve annunciando o dia em que vens e recebe um apertado abraço da tua tia muito amiga do coração

Ricardina. »

O advogado Silveira a quem elle correra a mostrar a carta, disse-lhe logo, traçando a perna, com uma das suas imagens floridas :

— Ahi tens tu ! Eras a barca batida da tempestade : abre-se-te o porto hospitaleiro !

(continua...)

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