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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

A noite caíra, Cristóvão parou. E sentado sobre uma rocha, com grandes lágrimas sobre a face, olhava as estrelas que, uma a uma, marcavam os pontos do céu. Era ali, naquela altura, que ele habitava. Oh! se ele pudesse subir lá, e ver como era a sua face, e sentir a doçura da suas mãos! Por que não voltaria ele mais para consolar os pobres, secar as lágrimas, agasalhar as criancinhas, e nutrir as multidões? Agora, que todos o amavam, ninguém o prenderia: o caminho que ele seguisse seria juncado de rosas; os bispos, nas suas capas de ouro, cantando e balançando os incensadores, viriam ao seu encontro. E para o defender, os barões correriam, cobertos de ferro e com lanças nos seus grandes corcéis! Por que não voltava? Ele seguiria pelo mundo os seus passos ligeiros: a cada instante afastaria as silvas, que o não magoassem; com grandes brados espantaria os cães, que ladram às portas dos castelos: fardos que houvesse, com alegria ele os levaria; só ele, e mais ninguém, colheria os frutos para o Senhor, ou iria buscar a água às nascentes melhores. De noite, faria com rama uma cabana para o abrigar do vento mau: - e estenderia o seu braço, para que nele repousasse a sua cabeça cansada. E assim, pensando, um imenso amor erguia-lhe o peito: - e, de pé numa rocha, os seus braços estendiam-se para o céu, para neles estreitar Aquele que, para o salvar, fora pregado na cruz. E três vezes chamou: “Jesus, Jesus, Jesus.”

Então, perto dele, ouviu como um pranto que cortava o silêncio da noite. Vinha de longe. de onde brilhava uma luz de cabana. Os seus passos foram para lá, esmagando a terra fresca. E mais perto reconheceu o soluçar de uma mulher que chorava. Decerto, alguém sofria muito. Havia ali orfandade ou viuvez, uma miséria que erguia os braços para o céu. Por que não vinha o Senhor? Se ele habitasse a Terra, para aquele casebre iriam os seus passos. Ele iria atrás humildemente, seguindo-o. Mas Jesus estava além, por trás daquelas estrelas. Por que não iria ele, como se seguisse o Senhor? Mais vivo e triste, o pranto cortou a noite. E Cristóvão, devagar, e com medo, bateu à porta do casebre,

IX

Longos dias são passados, e Cristóvão, na aldeia, é o servo de todos. As portas do convento nunca mais as transpôs: porque lá habitam a paz e a abundância, o celeiro está cheio de trigo, a adega está cheia de vinho, uma grande alegria e orgulho reinam nos corações – e para lá não iriam decerto os passos de Jesus, nem os seus a seguir o seu Senhor. Mas na aldeia há os velhos, os mendigos, os tristes, os órfãos, as viúvas; e a força dos seus braços pertence a esses, como o amor do seu coração, porque assim mandava o seu Senhor.

Simples e tímido, Cristóvão impõe os seus serviços: mas toda a fraqueza, que recorre à sua força, ganha a gratidão da sua alma. E pouco a pouco, sentindo nele um amparo, todos os fracos vieram a ele - de sorte que, desde que nasce a estrela de alva até que a noite cobre o vale, Cristóvão trabalha com tanta alegria, que o pesar dos maiores fardos lhe parece uma carícia, e nas feridas piores de curar sente um perfume inefável. Ele lavra a terra dos velhos; desbasta as florestas a grandes golpes de machado; seca os pântanos, com grossas pipas que carrega às costas; puxa os carros para que os bois não se esfalfem; transporta aos ombros os coxos; guia os passos dos que não vêem; vai ao longe mendigar o pão e a lenha dos pobres; embala os berços; cava a sepultura dos mortos: - e quando não há vento, ele, retesando os braços, faz girar a mó dos moinhos. Constantemente o seu nome é gritado por cima da sebe dos casais. Este tem o burro doente, e é Cristóvão quem transporta os fardos; aquele precisa de um ceifeiro, e Cristóvão parte com a foice; aquele teto precisa de colmo, e Cristóvão trá-lo às braçadas; para fazer o casebre da viúva não há pedra, e Cristóvão chega de remota pedreira, gemendo sob os blocos da rocha. É Cristóvão quem sopra o fogo do ferreiro; é Cristóvão quem sacode, a matinas, a corda do sino; é ele que, sozinho, abre nos lameiros a calçada nova; é ele quem escava os poços nos pátios dos casais. À noite estava prostrado. Quando os grandes invernos alagavam a aldeia, abrigava-se num vasto alpendre que mal o cobria de todo: de Verão estendia-se junto ao cruzeiro, e os primeiros pássaros, chalrando de madrugada, pousavam sobre os seus ombros, como sobre colinas escuras.

Aos domingos repousava, e esse era o deu dia melhor, porque as crianças brincavam com ele. Sentindo-o doce e paciente, todas corriam para ele como para um grande bicho que os divertia: e trepando por ele, era como o vivo prazer de trepar a árvores e a torres. Por vezes, com as mãos pousadas na terra, ele oferecia o seu vasto dorso, em que cavalgavam, presos pela cinta, uma longa fileira de corpinhos ágeis e vivos: e dando corcovos, imitava, entre as risadas alegres, o urro do leão ou o heróico relinchar de um corcel. Além disso sabia fazer, com as suas mãos cabeludas e cheias de terra, todas as sortes de brinquedos – flechas de caça, pequenos carros que rodavam no pó, barcos com velas para vogar no pego. Para tudo as crianças o tinham pronto – e só se recusava quando eles tentavam estragar a fruta verde, ou fazer mal aos melros.



(continua...)

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