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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Não, o Sr. João Eduardo, afirmou gravemente o cônego, que espertara, desdobrando o seu lenço vermelho - não era capaz de dizer uma dessas.

Amaro perguntou então:

- Quem é a Santa da Arregassa?

- Credo! Pois não tem ouvido falar, senhor pároco? exclamou numa admiração a Sra. D. Maria da Assunção.

- Há-de ter ouvido, afirmava a Sra. D. Josefa Dias com autoridade. Diz que os jornais de Lisboa vêm cheios disso!

- É, com efeito, uma coisa bem extraordinária, ponderou com um tom profundo o cônego.

A S. Joaneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:

- Ai, não imagina, senhor pároco, é o milagre dos milagres!

- Se é! se é!, disseram.

Houve um recolhimento devoto.

- Mas então?... perguntou Amaro, todo curioso.

- Olhe, senhor pároco, começou a Sra. D. Joaquina Gansoso endireitando-se no xale, falando com solenidade: a Santa é uma mulher que aqui há numa freguesia perto, que está há vinte anos na cama...

- Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assunção, tocando- lhe com o leque no braço.

- Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.

- Vinte e cinco, vinte e cinco, afirmou a S. Joaneira. E o cônego apoiou-a, oscilando gravemente a cabeça.

- Está entrevadinha de todo, senhor pároco! rompeu a irmã do cônego, ávida de falar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos são isto! - E mostrava o dedo mínimo. - Para a gente a ouvir é necessário pôr-lhe a orelha ao pé da boca!

- Pois se ela se sustenta da graça de Deus! disse lamentosamente a Sra. D. Maria da Assunção. Coitadinha! que até a gente lembra-se...

Houve entre as velhas um silêncio comovido. João Eduardo, que por trás das velhas, de pé, com as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode, disse então:

- Olhe, senhor pároco, a coisa é o que os médicos dizem: é que aquilo é uma doença nervosa.

Aquela irreverência fez, entre as velhas devotas, um escândalo; a Sra. D. Maria da Assunção persignou-se logo à "cautela".

- Pelo amor de Deus! gritou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor diga isso, diante de quem quiser, menos de mim! É uma afronta!

- É que até pode cair um raio, dizia para os lados, baixo, a Sra. D. Maria da Assunção, muito aterrada.

- Olhe, também lho digo, exclamou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor é um homem sem religião e sem respeito pelas coisas santas. - E voltando- se para o lado de Amélia, muito azeda: - Olhe, filha minha é que eu lhe não dava!

Amélia corou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho também, curvou-se sarcasticamente:

- Eu digo o que dizem os médicos. E de resto, acredite que não tenho pretensões a casar com pessoa da sua família! Nem mesmo consigo, Sra. D. Josefa!

O cônego deu uma risada muito pesada.

- Arreda! Cruzes! gritou ela, furiosa.

- Mas que faz então a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.

- Tudo, senhor pároco, disse a Sra. D. Joaquina Gansoso: está sempre de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ela peça tem a graça do Senhor; é a gente apegar-se com ela e cura-se de toda a moléstia. E depois, quando comunga, começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no ar, com os olhos erguidos para o Céu, que até chega a fazer terror.

Mas neste momento uma voz disse à porta da sala:

- Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz!

Era um rapaz extremamente alto, amarelo, com as faces cavadas, uma grenha riçada, um bigode a D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na boca, porque lhe faltavam quase todos os dentes de diante; e nos seus olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas. Trazia uma guitarra na mão.

- Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.

- Mal, respondeu ele com voz triste, sentando-se. Sempre as dores no peito, a tossezita.

- Então não se dava bem com o óleo de fígados de bacalhau?

- Qual! fez ele desconsoladamente.

- Uma viagem à Madeira, isso é que era, isso é que era! disse a Sra. D. Joaquina Gansoso com autoridade.

Ele riu, com uma jovialidade súbita:

- Uma viagem à Madeira! Não está má! A D. Joaquina Gansoso tem-nas boas! Um pobre amanuense de administração com dezoito vinténs por dia, mulher e quatro filhos! Para a Madeira!

- E como vai ela, a Joanita?

- Coitadita, lá vai! Tem saúde, graças a Deus! Gorda, sempre com bom apetite. Os pequenos, os dois mais velhos é que estão doentes; demais a mais agora a criada também caiu de cama! É o diacho!

Paciência! Paciência! - E encolhia os ombros.

Mas voltando-se para a S. Joaneira, dando-lhe uma palmada no joelho:

- E como vai a nossa Madre Abadessa?

(continua...)

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