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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E agora, nesse remate do Capítulo, era noite, e o sino de recolher tangera, e a almenara luzira na Torre Álbarrã, e Tructesindo Ramires descera à sala térrea da alcáçova para cear - quando fora, diante da cárcova, com três toques fortes anunciando filho de algo, uma buzina apressada soou. E, sem que o vílico tomasse permissão do senhor, o alçapão da levadiça rangeu nas correntes de ferro, ribombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim chegava em dura pressa era Mendo Pais, amigo de Afonso II e mordomo da sua Cúria, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. Teresa - aquela que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo pisar mais leve que um vôo, os Ramires chamavam a Garça Real. O Senhor de Santa Irenéia correra ao patim para acolher, num abraço, o genro amado - "membrudo Cavaleiro, com os cabelos ruivos, a alvíssima pele da raça germânica dos visigodos..." E, de mãos enlaçadas, ambos penetraram nessa sala de abóbada, alumiada por tochas que toscos anéis de ferro seguravam, chumbados aos muros.

Ao meio pousava a maciça mesa de carvalho, rodeada de escanhos até o topo, onde se erguia, diante dum áspero mantel de linho coberto de pratos de estanho e de pichéis luzidios, a cadeira senhorial com o Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e delas suspensa, pelo cinturão tauxiado de prata, a espada de Tructesindo. Por trás negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocais de sanguessugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o de Ultramar Rente a um esteio da chaminé, um falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcândora; e ao lado, sobre as lajes, numa camada de juncos, dois alões enormes dormiam também, com o focinho nas patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, à claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... Assim Gonçalo adornara a soturna sala Afonsina com alfaias tiradas do tio Duarte, de Walter Scott, de narrativas do Panorama. Mas que esforço!... E mesmo, depois de colocar sobre os joelhos do monge um fólio impresso em Mogúncia por Ulrick ZelI, desmanchara toda essa linha tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se não inventara em tempos de seu avô Tructesindo, e que ao monge letrado apenas competia "um pergaminho de amarelada escrita..."

E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até o arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava Mendo Pais, que, na confiança de parente e amigo, jornadeara sem homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de lã cinzenta uma espada curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de pó correra Mendo Pais desde Coimbra para suplicar ao sogro em nome do Rei e dos preitos jurados, que se não bandeasse com os de leão e com as senhoras Infantas. E já desenrolara ante o velho todos os fundamentos invocados contra elas pelos doutos Notários da Cúria - as resoluções do Concilio de Toledo! a bula do Apóstolo de Roma, Alexandre! o velho foro dos Visigodos!... De resto, que injúria fizera às senhoras Infantas seu real irmão, para assim chamarem hostes Leonesas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem Regedoria nem renda dos castelos e vilas da doação de D. Sancho lhes negava o senhor D. Afonso. O Rei de Portugal só queria que nenhum palmo de chão português, baldio ou murado, jazesse fora de seu senhorio real. Escasso e ávido, El-Rei D. Monso?... Mas não entregara ele à senhora D. Sancha oito mil morabitinos de ouro? E a gratidão da irmã fora o Leonês passando a raia e logo caídos os castelos formosos de Ulgoso, de Contrasta, de Urros e de Lanhoselo! O mais velho da casa dos Sousas, Gonçalo Mendes, não se encontrara ao lado dos Cavaleiros da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das Infantas, como mouro, talando terra portuguesa desde Aguiar até Miranda! E já pelos cerros de Além-Douro aparecera o pendão renegado das treze arruelas - e por trás, farejando, a alcatéia dos Castros! Carregada ameaça, e de armas cristãs, oprimindo o Reino - quando ainda Moabitas e Agarenos corriam à rédea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de Santa Irenéia, que tão rijamente ajudara a fazer o Reino, não o deveria decerto desfazer arrancando dele os pedaços melhores para monges e para donas rebeldes! - Assim, com arremessados passos, exclamara Mendo Pais, tão acalorado do esforço e da emoção, que duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e de um trago a despejou. Depois, limpando a boca às costas da mão trêmula:

- Ide por certo a Montemor, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D. Sancha e as Senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pai e seu Rei!

O enorme senhor de Santa Irenéia parara, pousando no genro os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sarças em manhã de geada:

- Irei a Montemor, Mendo Pais, mas levar o meu sangue e o dos meus para que justiça logrequem justiça tem.

Então Mendo Pais, amargurado, ante a heróica teima:

- Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Ricos-homens vertido por más desforras... SenhorTructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos tolher a passagem com cem lanças!

Tructesindo ergueu a vasta face - com um riso tão soberbo e claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o falcão esticou a asa lenta:

- Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor Mordomo-Mor da Cúria, tão de feição e certaassim ma trazeis para me intimidar?

(continua...)

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