Por Camilo Castelo Branco (1862)
Era Paula! Oh!... Paula!
Reinou profundo silêncio alguns minutos na sala. Quando me recobrei do espasmo, ergui-me e saí, sem encarar na desgraçada.
VIII
Na desgraçada - disse eu!... Que adjetivos tão tolos tem a nossa boa-fé para adaptar a certas mulheres que trazem a desgraça e a opinião pública sovada aos pés!
O meu amigo, voltando às onze horas da noite, achou-me febril, e assistiu-me até à madrugada com todos os recursos da medicina.
No dia seguinte, sossegando o pulso, contou-me assim o seguinte da diligência:
- Declarou Paula de Albuquerque que não era raptada e seguira de muito sua livre vontade aquele homem, que amava e com queria casar. O homem que ela seguia declarou ser irmão do padre-capelão da casa da menina e mestre-escola régio nos arrebaldes de Lisboa. Ajuntou mais o raptor, vertendo prantos caudais, que ele não queria de modo algum dar semelhante passo, mas que a fidalga fora ter com ele, dizendo que não havia outro meio de obterem consentimento para casarem e remediarem o mal feito. Acrescentou o meu amigo administrador que D. Paula, ouvindo tão ignóbil e covarde revelação do mestre-escola, rompera em vociferações contra ele, chamando-lhe miserável e pedindo que, sem demora, a enviassem a seu pai para não ver mais um homem indigno do sacrifício dela. O mestre-escola abundava no parecer de Paula e cuidava já em retirar-se, quando o administrador lhe disse que fosse esperar na cadeia que a inocência do seu passo fosse julgada. Em consequência do que o mestre de meninos desmaiou.
A autoridade oficiou daí ao governador civil, narrando-lhe os sucessos. Respondeu este que, visto ser tarde para entrar no convento, pernoitasse a fugitiva na estalagem, com vigias e sob a responsabilidade dos donos da casa, até virem de Lisboa novas ordens. O irmão do capelão foi para a cadeia e Paula, no dizer da Sra. Felícia, dormiu até uma quinta de seu pai em Azeitão.
Conclusão
Quando voltei a Lisboa, rara pessoa encontrei que me não contasse o sucesso com a hediondez natural das suas cores e com as outras exageradas, que a maledicência folga de carregar.
O mestre-escola, depois de alguns meses de prisão, foi mandado embora, sem ser julgado; mas na cadeia passou a bordo duma galera, que o desembarcou no Rio de Janeiro. É de crer que o fidalgo, para se forrar à vergonha dos debates no tribunal, perdoasse ao réu e conseguisse que o ministério público não achasse provas para a querela.
Pelo mesmo tempo, D. Paula casou com o primo que lhe fora destinado desde a puerícia e tornou para o palácio de Benfica, em companhia de seu marido e já com um menino robusto, não obstante ter nascido tão sem tempo que ninguém pensou que vingasse. Dizia a avó de Paula que semelhante prodígio não era novo na sua família, porque ouvira sempre dizer que os primogénitos da sua linhagem quase todos nasciam antes dos seis meses de incubação. Coisa notável!
Vi Paula no teatro: no seu camarote entravam as pessoas de mais brilho na sociedade lisbonense, e cortejavam-na com reverência igual à adoração.
Vi Paula nos bailes: os grandes do reino, os milionários, os anciãos reputados modelos de honra e austeridade, honravam-se de lhe darem o braço e de se curvarem a apanhar-lhe o leque do chão.
Vi o nome de Paula inscrito na lista das damas que socorrem os aflitos, pelo amor de Deus, e se chamam, na linguagem dos localistas, as segundas providências na Terra.
Vi, finalmente, que D. Paula era a mulher que o mundo respeitava, sem embargo do conde, e dos amigos íntimos do conde, e do mestre-escola, único bode expiatório de tamanhas patifarias!
A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
I
Naquele tempo li eu que Alfredo de Musset e Espronceda, poetas de altos espíritos, atordoavam as suas dores com a embriaguez, o primeiro porque amava uma literata anfíbia, o segundo porque o alanceavam remorsos de ter desgraçado uma Teresa, que morrera de paixão, por isso mesmo que não era literata.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.