Por Camilo Castelo Branco (1864)
Quisera o desembargador levá-lo consigo na traquitana; mas o moço rebelou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinácia do sobrinho em ficar, terceira noite, fora de casa. Afonso internou-se de corrida entre o arvoredo, num ímpeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o e foi para Lisboa, de onde participou à irmã o resultado das canas e aproveitou o ensejo para vaticinar que Afonso ia a caminho da demência a passos de gigante.
Disse-me Afonso que, naquela noite, fora ter a Mafra; e repousara, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do Sol, quis agitar-se em nova caminhada; mas o cavalo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassível à espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Afonso. A mais trágica desventura tem uma fisionomia cómica, se bem lha procuramos. Escusável seria o riso de quem observasse o cavaleiro, roxo de febre e cólera, esporeando os ilhais do esbuxado cavalo, decepado de jejuns e correrias árabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer pode questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!
Enquanto o cavalo reparava as forças na manjedoura, Afonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Teodora. Escreveu também ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.
Feito o propósito de viajar, o frenesi descaiu em sombria mas serena tristeza.
O céu negro abria-se-lhe, a instantes, em relâmpagos de luz. Atirava ele com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineável, e retraía-se com ela a uns rápidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas de dezoito anos! Viajar era-lhe já uma ânsia; cria-se resgatado assim das penas, e sé assim, que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.
Embevecido nesta esperança, voltou para Lisboa e recolheu-se tranquilo a casa do desembargador. Ninguém falou em Teodora. As primas forcejavam por distraí-lo sem mostrarem propósito disso. O velho proferia máximas, umas de Séneca, outras dele, acerca das paixões, abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Afonso, naqueles oito dias, pudera recopilar máximas e provérbios com que, no decurso de longa existência, regesse as suas acções e repartisse ciência de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inatento sobrinho do apotegmático desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as máximas de Séneca, e quase latinas as do tio, em virtude do estilo graúdo e filintiano em que as compusera. O certo foi que Afonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.
Mais vernáculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.
Num dos dias em que Afonso estava esperando recursos para. se expatriar com a sua dor, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Afonso, desgostoso da surpresa, bem que as lágrimas o consolassem ao ver sua mãe, receou que ela viesse apostada, com o império dos prantos ou da autoridade, a demovê-lo de viajar. A santa senhora, entrandolhe na alma, sorriu benignamente e disse-lhe:
- Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sair de tua pátria, não quiseste ir abraçar tua velha mãe, e abraçá-la talvez para nunca mais a tornares a ver.
Vim eu, sabe Nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Afonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca saírem da Pátria para as guerras contra a Espanha os militares ainda mancebos e os generais já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e ora em comum diante da cruz a que suas mães tinham orado com eles tenrinhos nos braços.
Este era o uso da nossa família antiga, meu filho, e não sei porque não há-de continuar connosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que eles oravam também eu orei contigo, em meu seio, e lá aprendeste de minha boca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos - nome doce de mãe que te estremece - seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Afonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com antecipação o abraço que eu lhe pediria nos últimos instantes da vida.
Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar e ficar pedindo a Jesus Nosso Pai que te guie e restitua aos que te ficam chorando. Enquanto a dinheiro, Afonso, tu dirás o que queres, que pronto está. Praza a Deus que ele te não sirva de ruína ou desonra.
O desembargador, que estivera ouvindo esta afectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no ombro com severidade e clamou:
- Acorda, coração de pedra!... Cora de pejo, e doa-te o arrependimento, filho mau!
- Meu mano - disse a senhora -, o nosso Afonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que ele tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou nesta má vereda fui eu.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.