Por Machado de Assis (1872)
"O casamento me restituirá a confiança, pensava ele; quando estivermos juntos os dous, afastados da convivência e do contato de estranhos, a paz morará no meu coração; só então seremos felizes sem amargura nem remorso."
CAPÍTULO X / A ENFERMA
A DOENÇA de Raquel era grave; durante alguns dias chegaram a recear um desenlace funesto. Os velhos pais quase enlouqueceram, quando o médico os preparou para a terrível catástrofe. A menina percebeu o seu estado, mas nem o medo da morte, nem a saudade da terra lhe fez doer o coração. Morria como flor que era. A mágoa era toda para os que a viam assim condenada sem remédio.
O médico assistente dera à moléstia um nome tirado não sei se do grego, se do latim. Na opinião da mãe, havia alguma cousa mais do que o nome e a moléstia; havia uma inexplicável melancolia, anterior à doença, uma espécie de tédio precoce da vida, se não era antes alguma esperança malograda, - ou mais claramente, alguma afeição sem esperança.
Para obter dela a confissão que imaginava, tinha D. Matilde o necessário tato e doçura; era mulher e mãe. Mas, ou porque nada houvesse realmente, ou porque quisesse levar consigo o segredo da sua melancolia, Raquel nenhuma confissão lhe fez. Dous dias depois da visita de Lívia, Félix foi a casa do coronel O coronel estava na sala, mergulhado numa poltrona, com os olhos parados e as feições abatidas pela vigília e pela dor. Quis levantar-se quando Félix apareceu à porta, mas este correu para ele e impediu o movimento.
— Soube anteontem do estado de sua filha, disse Félix sentando-se ao lado do velho pai. Disseram-me que estava mal...
— Mal, repetiu o coronel, definitivamente mal. A pouca esperança que tínhamos veio tirar no-la o médico. O senhor não sabe o que é perder assim metade da alma. Félix disse algumas palavras banais de consolação, e chegou até a falar de esperança; mais ainda que a esperança fala sempre ao coração dos desgraçados, o bom velho em outra coisa não acreditava mais que na morte.
Algum tempo estiveram calados; enfim o coronel rompeu o silêncio:
— Raquel é muito sua amiga, disse ele. Duas vezes perguntou pelo senhor.
— Desde quando está doente?
— De cama está há quinze dias; mas já sofria antes disso. A princípio não me deu muito cuidado; a moléstia, porém, agravou-se rapidamente, e tem ido a pior. Foram interrompidos pelo médico assistente. Tinha este sido companheiro de Félix na escola. Ao vê-lo ali suspeitou que o tivessem mandado chamar; Félix apressou-se a explicar o motivo da sua visita.
— Em todo o caso, doutor, disse o outro, aproveito as suas luzes, e façamos, se lhe parece, uma conferência.
O coronel foi ver se Raquel estava acordada; voltou pouco depois e acompanhou os dois médicos à alcova da doente. Félix foi o primeiro que assomou à porta; parou alguns instantes, impressionado com o espetáculo que se lhe oferecia.
Sentada à cabeceira da cama estava D. Matilde, descorada e abatida, com os olhos túmidos, e porventura cansados de chorar. Aos pés da cama via-se uma moça amiga da infância de Raquel, e sua dedicada enfermeira, nesta ocasião. Ambas, triste e silenciosamente, contemplavam a doente.
Raquel estava branca como a fronha do travesseiro em que descansava a formosa cabeça. Tinha os lábios entreabertos e a respiração curta e difícil. O pequeno rumor que fizeram os médicos ao entrar um pouco a sobressaltou. Raquel abriu os olhos, que ardiam de febre.
Quando Félix se aproximou do leito e tomou o pulso da moça, esta olhou para ele e fez um gesto de espanto. Olhou depois em volta de si, como se duvidasse do lugar em que se achava. D. Matilde inclinou-se para a filha e disse:
— É o Dr. Félix.
Raquel olhou outra vez para Félix, com aquele sorriso apagado e triste dos doentes e murmurou:
— Obrigada!
— Como se sente? perguntou Félix.
— Melhor, disse ela com uma voz tão fraca que parecia um suspiro
— Deveras melhor?
Raquel fez um gesto de indiferença e não respondeu.
— Vamos lá, não desanime, disse Félix, e sobretudo não faça entristecer seus pais, que lhe querem tanto.
Félix examinou a doente, fazendo-lhe algumas perguntas, a que ela debilmente respondia. Quando ele cessou de a interrogar, a moça murmurou:
— Morro, não é?
— Não, disse Félix, não há de morrer, não deve morrer. Tem ainda vida larga, mas é preciso ânimo.
Raquel fez um gesto de quem não acreditava nas boas palavras do médico e voltou as olhos para a mãe. D. Matilde tinha os seus cravados em Félix, como se lhe quisesse ler no rosto a sentença da filha. A doente pareceu adivinhar o pensamento, e disse com esforço:
— Por que não dá as suas consolações a mamãe?
A conferência não durou muito tempo. Félix começou opinando por uma modificação no tratamento até ali seguido, e declarou que não julgava todas as esperanças perdidas. O colega concordou facilmente na alteração pedida por Félix, tanto mais, disse ele, quanto as esperanças eram nenhumas.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.