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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Na hora aprazada, por entre prantos e ataques, com a assistência curiosa da vizinhança, o caixão foi saindo, acompanhado das grinaldas que amigos carregavam. As inscrições nas fitas das coroas eram longas e, em uma delas, pude ler: “Ao competentíssimo chefe de seção da Repartição de Terras, Mangues, Pauis e Atoleiros, os seus colegas da mesma – Rio, 6-5-14”.

As outras eram do mesmo teor, O enterro seguiu e nunca vi carro que balançasse mais nas molas do que o meu. Fomos indo. Tínhamos que atravessar a linha da Estrada de Ferro Central.

A cancela estava aberta; o carro mortuário passou e alguns do cortejo; mas o resto ficou do lado de cá, pois a tranqueira foi fechada para dar livre trânsito aos comboios vertiginosos.

Passou S P 5 célebre e ficou-se à espera de um outro S qualquer. Este veio e atracou à estação com a locomotiva diante da porteira. Mas não havia meio de partir; e o coche86 com o cadáver de meu amigo esperava o resto do cortejo, que fora cindido em dois pelas inflexíveis linhas de aço. Porque não partia o trem? Houvera um desarranjo no “subúrbio” que o antecedera e a linha estava impedida.

Após uma demora de vinte minutos, conseguimos que as autoridades competentes fizessem recuar um pouco o comboio.

Seguimos e eis-nos na Rua José Bonifácio, em Todos os Santos. Esta rua há vinte anos que foi calçada; e, desde essa longínqua data, o seu calçamento não tem recebido o menor reparo. Os buracos nele são abismos e o cocheiro do coche fúnebre, ao desviar-se de um bonde, caiu em um deles, o caixão foi ao chão, o cadáver saltou de dentro deste e o meu amigo, ainda mesmo depois de morto, ficou machucado.

Piedosamente concertamos o defunto e o caixão, seguindo enfim o nosso caminho.

Na entrada da Estrada Real, no canto da Rua José Bonifácio, graças a um buraco que a Light deixa entre os seus trilhos, uma caleça partiu o eixo e, dos seus passageiros, um quebrou uma das pernas.

Houve outras peripécias e, tão emocionantes foram, que o defunto ressuscitou.

Ainda bem que ele não se alistou no partido do senhor Vasconcelos. Careta, Rio, 17-7-1915.

PAÍS RICO

Meu amigo e colega Juvenal Calheiros é um pai exemplar que cuida com toda a solicitude da educação dos filhos.

Procura bons colégios, informa-se dos professores, segue as lições dos meninos – isto tudo sem o menor desfalecimento.

De resto, ele é um patriota, crente na grandeza do Brasil, nas suas riquezas e no seu futuro; põe, portanto, todo o seu esforço em instilar no espírito dos seus pimpolhos essa sua forte e virtuosa crença.

Damo-nos muito, desde o colégio primário, e frequento-lhe a casa, vivo na intimidade de sua família, o que me dá grande gosto, pois, não tendo propriamente família, aprecio muito a família dos outros.

Não sendo rico, tem Juvenal alguma coisa e vive com certa abastança, em uma boa casa lá das bandas de Vila Isabel.

Domingo, não tendo onde ir, nem mesmo às festanças da Quinta da Boa Vista, cujos recantos, cuja placidez, cuja majestade de parque principesco me encantam muito, quis ver o meu amigo.

É preciso que eu lhes diga que não fui à quinta, porque não vou a lugares públicos quando se paga. Julgo que, podendo eu ir sem pagar a certo lugar, não vou gastar dinheiro para lá ir. Nesse ponto, não sou como o resto do Rio de Janeiro.

Continuo a narração. Tomei o bonde conveniente e parti para a casa do meu amigo, apreciando o domingo, cheio de rapazes endomingados, de damas de laçarotes, de automóveis pejados de gente, de jogadores de football, de amadores de corridas, – gente feliz por ter um dia em que não faz nada.

Cheguei em boa hora à casa do meu amigo que conversava na chácara com a família. Ainda liam, ele e os filhos, os jornais.

Não quis interromper-lhes a leitura e acertei um jornal para, relendo-o, não impedir a leitura deles.

A dona da casa estava no interior tratando de negócios caseiros.

Num dado momento, um dos filhos do meu amigo, descansando os jornais, perguntou ao pai:

– Papai, o Brasil não é um país muito rico?

– É.

– Tem ferro?

– Tem.

– Tem cobre?

– Tem.

– Tem zinco?

– Tem. Porque tu perguntas isso?

– É que vejo os jornais muito indignados porque querem exportar ferro velho, cobre, etc. Se nós temos ferro, cobre na terra, porque tal zanga?

A dona da casa veio convidar-nos para o almoço.

Careta, Rio, 31-7-1915.

UM JANTAR NO JÚRI

A função de jurado é uma das mais nobres da nossa sociedade. A lei exige mais pureza de vida para o ser do que para receber o subsídio de deputado. Nenhum processo por tais e quais crimes e infrações, nem mesmo que seja neles absolvido.

Os sábios gabam muito a Inglaterra por ter instituído semelhante espécie de julgamento e doutores em leis clamam contra a intervenção dos leigos nos seus domínios, por intermédio da famosa criação jurídica inglesa.

(continua...)

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