Por Machado de Assis (1858)
Quando Almada chegou. Em volta dele
Ansiosos todos a conversa escutam
E as promessas do astuto jesuíta,
Em cuja honra o adulador Veloso
Um acróstico lembra, e lembraria
Igualmente um jantar, se o néscio
Lucas, Que outra cousa não tem nos ermos cascos,
Primeiro não lançasse a grande idéia.
CANTO VIII
I
Era alto dia, e todo alvoroçado
Corria o povo de uma banda a outra,
A sentença aguardando do conselho
Que ia da excomunhão julgar o caso.
A tranqüila cidade que inda há pouco
No regaço da paz adormecia,
Em dous opostos campos se divide,
Como os que a bela terra, em cuja fala
A musa antiga suspirar parece,
Um tempo viu terçar sangrentas armas
Em favor da tiara e da coroa.
.................................................
................................................
II - III – IV – V
VI
...................................................................
...................................................................
Das doutas expressões com que alindara
O libelo da Câmara, nos olhos
Dos conselheiros curioso busca
O gosto interpretar que lhes deixara,
O pasmo, a admiração; e tantas vezes
No ânimo revolve o seu discurso,
Que o debate não ouve do Congresso,
E ali com gente solidário fica.
VII
Na sua sala, entanto, passeando
O prelado aguardava a boa nova,
E certo do triunfo, já na mente,
Em obséquio ao reitor, delineava
Um pomposo jantar. De quando em quando
À janela chegava; mas não vendo
O mensageiro seu, de impaciente
Mordia o lábio e a causa da demora
Entre si perguntava e respondia.
Conjeturava então que o Dom Abade,
Por afeição do Mustre, e desejoso
De dar no seu poder um grande golpe,
Um discurso fazia entremeado
De longas citações e perdigotos.
Mas o agudo reitor, que pelejava
Ao lado da justiça, e traz consigo
Autores que estudara a noite inteira,
Trovejando vermelho se levanta,
E com amplas razões, iradas vozes,
Entre o férvido aplauso do conselho, ponto por ponto lhe
desfaz na cara
Toda a argumentação beneditina.
VIII
A tais cousas alheio, o sol brilhante,
Esse eterno filósofo que os raios
Com desdenhosa placidez desfere
Iguais sobre ouvidores e prelados,
Já do zênite ao rúbido ocidente
Inclinava a carreira. Examinados
A causa do conflito e os seus efeitos,
Pesadas as razões de parte a parte,
Unânime o conselho determina
A excomunhão sustar do austero Mustre
E a causa sujeitar ao régio voto.
Em vão na mente decorado tinha
O reitor um discurso, em que provava
A justiça do Almada; mas a Ira,
Que tomando a figura de um porteiro,
Assiste à discussão, que o triunfo
Busca evitar do intrépido prelado,
De tais artes se serve, de tais manhas,
Que o cérebro transtorna ao jesuíta,
A opinião lhe muda, e o nome dele
Entre os nomes reluz do torvo acórdão.
IX
Copiada a sentença, ali se escolhe
Para a Almada levá-la prontamente
O escrivão do Senado; mas o triste,
Que do prelado conhecia a fama,
Umas dores alega na cabeça,
E por que seja acreditado o caso,
A meter-se na cama logo corre.
Então, o alcaide-mor, que presidia
O governo da terra e o grão conselho,
Um franciscano elege e um carmelita,
E desta expedição confia o mando
Ao reitor do colégio. Bem quiseram
Aqueles atrevidos comissários
Antes do golpe manducar um pouco,
Mas o fino Alvarenga, que previa
Um estrago fatal à sua copa,
Que era de urgência o caso lhes declara,
E delicadamente os põe na rua.
X
Estavas, grande Almada, repousando
De um ligeiro jantar, comido à pressa,
E rodeado dos fiéis amigos,
Antegostavas o terror do Mustre
E a triste humilhação com que viria
De rojo às tuas veneráveis plantas
A remissão pedir dos seus pecados,
Quando à porta assomou da vasta sala
A grande comissão. Correram todos
A receber com muitas cortesias
Os não previstos hóspedes. Alegre,
Nas suas mãos aperta as mãos do Almada
O pérfido reitor, e olhando em roda
Levemente aos demais a fronte inclina.
Depois, fitando no prelado os olhos,
Concertada a garganta assim começa:
“Se entre os louros, senhor, com que a fortuna,
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.