Por Bernardo Guimarães (1883)
Era uma menina, que parecia ter quatorze annos, de bello porte, cabellos de azeviche, não mui finos e sedosos, mas espessos e de um brilho refulgente como o do aço polido. — Os olhos grandes e da mesma côr dos cabellos tinhão tal expressão de ingenuidade e doçura, que captavão logo a sympathia a affeição de todos. A bocca pequena, com labios carnudos do mais voluptuoso e encantador relevo formava com o queixo algum tanto pronunciado c o nariz recto e afilado um perfil das mais delicadas e harmoniosas curvas. A tez do rosto e das mãos era de um moreno algum tanto carregado ; mas quem embebesse olhar curioso pelo pouco que se podia entrever do collo por baixo do corpilho do vestido, bem podia adivinhar que era o sol, que a tinha assim crestado, e que sua cor natural era fina e mimosa como a do jambo. Não trazia mantilha, esses dous covados de panno ou baeta, em que não andou thesoura nem agulha, e com que as escravas e as mulheres de baixa classe em S. Paulo usavão embrulhar a cabeça e os hombros ; em vez della trazia sobraçado um bonito chale de lã, e trajava um vestido côr de rosa ; a linda e opulenta madeixa era o unico ornato de sua cabeça, e os pés calçavão chinelos de marroquim vermelho. Trajada com tal singeleza e dotada de tanta graça e formosura Offerecia um interessante e gentil modelo de camponeza digno de occupar a attenção e o pincel do mais habil artista.
Os meninos rodeavão a rapariga com ar de estupefacção e a comtemplavão com a mais viva curiosidade. Ella parou defronte da senhora, fitou-lhe os olhos meigos, e tomou-lhe a benção com um ar ao mesmo tempo terno c submisso. Ao pôr os olhos na menina, a senhora sentio-se assaltada de estranha emocão, ou porque a sympathica physionomia da escrava, e a encantadora in oenuidade, que respirava em toda sua angelica figura, lhe tocasse o coração, ou porque o seu lindo rosto lhe des pertasse n'alma vaga reminiscencia de alguma pessoa que conhecera. Emfim não podia capacitar-se de que aquella formosa e interessante rapariga fosse a escrava destinada á sua filha.
Que menina é esta: que o senhor nos traz, senhor Moraes? perguntou ella ao marido. Que é da escravinha, que está mpre a prometter á Estellinha ella está sompre a amofinar-me com suas impaciencias.
— Pois não está aviante de teus olhos?!
respondeo e marido apreciando com desvanecimento a sorpresa da mulher. Eu tinha promettido á Estella uma joia, e não ahi qualquer creoula beiçuda, ou mula encarapinhada. Custou-me, porém sempre achei. Que tal te parece? . . .
— Muito lindasinha. Como se chama Rozaura.
— Rozaura ! . . . até o nome é bonito. Vem cá, Rozaura; não sou eu a tua senhora ; tua senhora é esta menina,- — accrescentou pegando Estella pelo braço e collocando-a defronte de Rozaura.
Então a gentil escravinha com singeleza e desembaraço infantil acocorou-se sobre o largo tapete junto ao piano, sentou Estella sobre o seu regaço e envolvendo-a com os braços beijou-a em ambas as faces exclamando :
— Esta é que é minha sinhásinha ! ... como é tão bonitinha ! . .
A linda escrava tambem nesse momento sentia banhar-se-lhe o coração em effluvios de estranha ternura, que lhe humedecia os olhos, e ora acariciando a filha, ora olhando para a mãe, julgava-se como que arrebatada a um mundo estranho. Estella retribuía com mudos affagos as caricias da escrava. A senhora com a face na mão contemplava com a mais benevola e terna complacencia aquella scena encantadora, c não se fartava de olhar para Rozaura, que com modos tão meigos e naturacs lhe affagava os filhinhos, como si já os conhecesse de longa data.
Está bom, disse a senhora levantando-se, -— são horas de jantar. Estella, vae chamar Lucinda.
A menina correo para o interior da casa, e dahi a momentos reappareceo com a preta velha, que já conhecemos.
— Lucinda, — disse a dona da casa, leva esta menina para dentro, mostra-lhe toda a casa, e trata bem della ; de hoje em diante ella faz parte da familia ; é a mocama de sinhá Estelinha.
A preta estatalou os grandes olhos esbuga lhados sobre a rapariga.
— Hé! ha ! — exclamou ella admirada — Como é isso, sinhá ! pois essa menina é captiva mesmo? . . é a mocama, que sinhó comprou . , cruz! . . . parece mais outra sinhásinha. Vamos, minha filha, vamos para dentro, — continuou Lucinda, tomando a mão de -Rozaura e conduzindo-a para o interior da casa. Os meninos as acompanhárão, pulando de contentes.
— Não achas, Adelaide, — disse Moraes á sua mulher, logo que se achárão sós, — não achas que não era possivel encontrar peça mais linda para a nossa Estellinha? como ella ficou satisfeita com a sua faceira mocama!...
— Na verdade é muito linda creatura, — respondeo Adelaide. — Até faz pena ver no captiveiro uma menina tão mimosa. Si ella fóli boa mesmo, como parece, hei de tratal-a com todo o carinho, mais como uma companheira, uma irmã de meus filhos, do que como escrava; e até, si fór possivel, o meu desejo é dar-lhe a liberdade. Uma creatura tão bella e interessante não nasceo para o captiveiro.
— Oh! quanto a isso, mais devagar, minha querida. Poderemos forral-a lá pelo tempo adiante, si efla o merecer. Custou-nos uma somma consideravel, e não é para já largarmos mão delia. Não pude arrancai-a das garras do casmurro do senhor, sinão por dous contos e quinhentos mil reis. Como teu pae deo-me carta branca e disse-me que não olhasse a dinheiro, mais que me pedissem, eu daria.
— Muito mais que isso vale ella, — retorquio Adelaide. — Por mim não a largarei mais nunca, nem por quanto dinheiro ha neste mundo.
CAPITULO II
O senhor Moraes.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.