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#Comédias#Literatura Brasileira

O bote de rapé

Por Machado de Assis (1864)

Gelados, chá... A coisa há de custar caro.

O mal é que eu desde já me preparo

A despender com isto algum cobrinho...O quê?

Quem fala?

O NARIZ

Sou eu; peço a vossa mercê

Me console, insirindo um pouco de tabaco.

Há três horas jejuo, e já me sinto fraco,

Nervoso, impertinente, estúpido, -- nariz,

Em suma.

TOMÉ

Um infeliz consola outro infeliz;

Também eu tenho a bola um pouco transtornada,

E gemo, como tu, à espera da pitada.

O NARIZ

nariz sem rapé é alma sem amor.

TOMÉ

Olha podes cheirar esta pequena flor.

O NARIZ

Flores; nunca! jamais! Dizem que há pelo mundo

Quem goste de cheirar esse produto imundo.

Um nariz que se preza odeia aromas tais.

Outros os gozos são das cavernas nasais.

Quem primeiro aspirou aquele pó divino,

Deixas as rosas e o mais as ventas do menino.

TOMÉ (consigo)

Acho neste nariz bastante elevação,

Dignidade, critério, empenho e reflexão.

Respeita-se; não desce a farejar essências,

Águas de toucador e outras minudências.

O NARIZ

Vamos, uma pitada!

Um instante, infeliz!

(à parte)

Vou dormir para ver se aquieto o nariz.

(Dorme algum tempo e acorda)

Safa! Que sonho; ah! Que horas são!

O RELÓGIO (batendo)

Uma, duas.

TOMÉ

Duas! E a minha Elisa a andar por essas ruas. Coitada! E este calor que talvez nos dará

Uma amostra do que é o pobre Ceará.

Esqueceu-me dizer tomasse uma caleça.

Que diacho! Também saiu com tanta pressa!

Pareceu-me, não sei; é ela, é ela, sim...

Este passo apressado ... És tu, Elisa?

CENA III: TOMÉ, ELISA, UM CAIXEIRO (com uma caixa)

ELISA

Enfim!

Entre cá; ponha aqui toda essa trapalhada.

Pode ir.

(Sai o caixeiro)

Como passaste?

TOMÉ

Assim; a asma danada

Um pouco sossegou depois que dormitei.

ELISA

Vamos agora ver tudo quanto comprei.

TOMÉ

Mas primeiro descansa. Olha o vento nas costas. Vamos para acolá.

Cuidei voltar em postas.

ELISA

Ou torrada.

TOMÉ

Hoje o sol parece estar cruel.

Vejamos o que vem aqui neste papel.

ELISA

Cuidado! é o chapéu. Achas bom?

TOMÉ

Excelente.

Põe lá.

ELISA

(põe o chapéu)

Deve cair um pouco para a frente.

Fica bem?

TOMÉ

Nunca vi um chapéu mais taful.

ELISA

Acho muito engraçada esta florzinha azul.

Vê agora a cambraia, é de linho; fazenda

Superior. Comprei oito metros de renda,

Da melhor que se pode, em qualquer parte, achar.

Em casa da Creten comprei um peignoir.

TOMÉ

(impaciente)

Em casa da Natté

ELISA

Cinco rosas da China.

Uma, três, cinco. São bonitas?

TOMÉ

Papa-fina.

ELISA

Comprei luvas couleur tilleul, creme, marron; Dez botões para cima; é o número do tom

Olhe este gorgorão; que fio! que tecido!

Não sei se me dará a saia do vestido.

TOMÉ

Dá.

ELISA

Comprei os galões, um fichu, e este véu. Comprei mais o plissé e mais este chapéu.

TOMÉ

Já mostraste o chapéu.

ELISA

Fui também ao Godinho,

Ver as meias de seda e um vestido de linho.

Um não, dois, foram dois.

(continua...)

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