Por Machado de Assis (1874)
O padre não perguntou mais nada, suspeitando que a mulher ocultava coisa que não podia dizer. Ou fosse por essa circunstância, ou porque o menino lhe inspirava simpatia, o fato é que o padre não perdeu de vista aquela pobre família composta de duas pessoas. Naturalmente caridoso, não poucas vezes o padre ajudava a mulher nas necessidades de sua vida. A maledicência não deixou de abocanhar a reputação do padre com respeito à proteção que dava à mulher. Mas ele tinha uma filosofia singular: olhava por cima do ombro os caprichos da opinião.
Como o menino já tivesse oito anos, e não soubesse ler, quis o padre Vilela começar a educação dele e a mulher agradecida aceitou os obséquios do padre. A primeira coisa que o mestre admirou no discípulo foi a docilidade com que ele ouvia as lições e afinco e zelo com que as estudava. É natural da criança preferir os brincos aos labores do estudo. O menino Flávio fazia do aprender uma regra e do brincar uma exceção, isto é, primeiro decorava as lições que o mestre lhe dava, e só depois de as ter sabidas é que se ia divertir com os outros rapazes seus companheiros. Com este merecimento, tinha o menino outro ainda maior, era o de uma inteligência clara, e imediata compreensão, de maneira que ia entrando nos estudos com pasmosa rapidez e inteira satisfação do mestre.
Um dia, adoeceu a mulher, e foi caso de verdadeira aflição para as duas criaturas a quem ela mais estimava, o padre e o pequeno. Agravou-se a moléstia a ponto de ser necessário aplicarem-se os sacramentos. Flávio, já então de doze anos, chorava que fazia dó. A mulher expirou beijando o menino:
— Adeus, Flávio, disse ela, não te esqueças de mim.
— Minha mãe! exclamou o pequeno abraçando a mulher.
Mas ela já o não podia ouvir.
Vilela pôs-lhe a mão sobre o coração, e voltando-se para Flávio disse:
— Está com Deus.
Não tendo ninguém mais neste mundo, o menino ficara à mercê do acaso, se não fosse Vilela que imediatamente o levou consigo. Como já havia intimidade entre os dois, não foi difícil ao pequeno a mudança; contudo nunca se lhe varria da memória a idéia da mulher
que ele, não só chamava mãe, como até a tinha por isso, visto que não conhecera outra. A mulher, na véspera de morrer, mandou pedir ao padre lhe viesse falar. Quando ele chegou, mandou sair o pequeno e disse-lhe:
— Vou morrer, e não sei o que há de ser de Flávio. Não ouso pedir-lhe, reverendíssimo, que o tome para si; mas quisera que fizesse alguma coisa por ele, que o recomende a algum colégio da caridade.
— Descanse, respondeu Vilela; eu me incumbo do rapaz.
A mulher olhou agradecida para ele.
Depois fazendo um esforço tirou debaixo do travesseiro uma carta lacrada e entregou-a ao padre.
— Esta carta, disse ela, foi-me entregue com este menino; é escrita por sua mãe; tive ordem de lhe entregar quando ele completasse vinte e cinco anos. Não quis Deus que eu tivesse o gosto de cumprir a recomendação. Quer V. Revmª. incumbir-se dela? O padre pegou na carta, leu o sobrescrito que dizia assim: A meu filho. Prometeu entregar a carta no prazo indicado.
III
Flávio não desmentiu as esperanças do padre. Os seus progressos eram espantosos. Teologia, história, filosofia, línguas, literatura, tudo isso estudou o rapaz com pasmosa atividade e zelo. Não tardou que excedesse ao mestre, porquanto este era apenas uma inteligência medíocre e Flávio possuía um talento superior.
Como boa alma que era, o velho mestre tinha orgulho na superioridade do discípulo. Conhecia perfeitamente que, de certo tempo em diante, os papéis estavam trocados: era ele quem teria de aprender com o outro. Mas a própria inferioridade fazia a sua glória. — Os olhos que descobrem um brilhante, dizia o padre consigo, não fulgem mais que ele, mas alegram-se com tê-lo achado e dado ao mundo.
Não vem ao caso referir os sucessos que deslocaram o padre da sua freguesia em Minas para a corte. Veio o padre residir aqui quando Flávio contava já dezessete anos. Tinha alguma coisa de seu e podia viver independente, em companhia de seu filho espiritual, única família sua, mas quanto bastava aos afetos do seu coração e aos hábitos intelectuais.
Flávio já não era então o pobre menino de Minas. Era um elegante rapaz, belo de feições, delicado e severo de maneiras. A educação que tivera em companhia do padre dera-lhe uma gravidade que realçava a pureza de suas feições e a graça do seu gesto. Mas por cima de tudo isso havia um véu de melancolia que tinha duas causas: o próprio caráter dele, e a lembrança incessante da mulher que o criara.
Vivendo em casa do padre, com a subsistência que permitiam as posses deste, instruído, admirado, cheio de esperanças e de futuro, Flávio recordava sempre a vida de pobreza que tivera em Minas, os sacrifícios que a boa mulher fizera por ele, as lágrimas que algumas vezes derramaram juntos quando chegava a faltar-lhes o pão. Não esquecera nunca o amor que aquela mulher lhe consagrara até a morte, e o zelo extremo com que o tratara. Em vão procurara na memória alguma palavra mais ríspida da parte de sua mãe: só conservava a lembrança de afagos e amores.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Muitos anos depois. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1874.