Por Martins Pena (1844)
Chiquinha (rindo-se) — É pena que a menina vá viver por essas brenhas com as feras da Hircânia, com os tatus e tamanduás. E tu acreditas em todo este palanfrório?
Maricota — E por que não? Têm-se visto muitas paixões violentas. Ouve agora esta outra. (Tira outra carta do seio)
Chiquinha — Do mesmo?
Maricota — Não, é daquele mocinho que está estudando latim no Seminário de S. José.
Chiquinha — Namoras também a um estudante de latim?! O que esperas deste menina?
Maricota — O que espero? Não tens ouvida dizer que as primeiras paixões são eternas? Pais bem, este menino pode ir para S. Paulo, voltar de lá formado e arranjar eu alguma cousa no caso de estar ainda solteira.
Chiquinha — Que cálculo! É pena teres de esperar tanto tempo...
Maricota — Os anos passam depressa, quando se namora. Ouve: (lendo:) "Vi teu mimoso semblante e fiquei enleado e cego, cego a ponto de não poder estudar minha lição." (Deixando de ler:) Isto é de criança. (Continua a ler) "Bem diz o poeta latino: Mundus a Domino constitutus est." (Lê estas palavras com dificuldade e diz:) Isto eu não entendo; há-de ser algum elogio... (Continua a ler) "...constitutus est. Se Deus o criou, foi para fazer o paraíso dos amantes, que como eu têm a fortuna de gozar tanta beleza. A mocidade, meu bem, é um tesouro, porque senectus est morbus. Recebe, minha adorada, os meus protestos. Adeus, encanto. Ego vocor Tibúrcio José Maria." (Acabando de ler:) O que eu não gosto é escrever-me ele em latim. Hei-de mandar-lhe dizer que me fale em português. Lá dentro ainda tenho um maço de cartas que te poderei mostrar; estas duas recebi hoje.
Chiquinha — Se todas são como essas, é rica a coleção. Quem mais passou?
Vamos, dize...
Maricota — Passou aquele amanuense da Alfândega, que está à espera de ser segundo escriturário para casar-se comigo. Passou o inglês que anda montado no cavalo do curro. Passou o Ambrósio, capitão da Guarda Nacional. Passou aquele moço de bigodes e cabelos grandes, que veio da Europa, aonde esteve empregada na diplomacia. Passou aquele sujeito que tem loja de fazendas. Passou...
Chiquinha (interrompendo) — Meu Deus, quantas!... E a todos esses namoras?
Maricota — Pais então! E o melhor é que cada um de per si pensa ser o único da minha afeição.
Chiquinha — Tens habilidade! Mas dize-me, Maricota, que esperas tu com todas essas loucuras e namoros? Que planos são as teus? (Levanta-se) Não vês que te podes desacreditar?
Maricota — Desacreditar-me por namorar! E não namoram todas as moças? A diferença está em que umas são mais espertas do que outras. As estouvadas, como tu dizes que eu sou, namoram francamente, enquanto as sonsas vão pela calada. Tu mesma, com este ar de santinha — anda, faze-te vermelha! — talvez namores, e muito; e se eu não passo assegurar, é parque tu não és sincera como eu sou. Desengana-te, não há moça que não namore. A dissimulação de muitas é que faz duvidar de suas estripulias. Apontas-me porventura uma só, que não tenha hora escolhida para chegar à janela, ou que não atormente ao pai ou à mãe para ir a este ou àquele baile, a esta ou àquela festa? E pensas tu que é isto feito indiferentemente, ou por acaso? Enganas-te, minha cara, tudo é namoro, e muito namoro. Os pais, as mães e as simplórias como tu é que nada vêem e de nada desconfiam. Quantas conheço eu, que no meio de parentes e amigas, cercadas de olhos vigilantes, namoram tão sutilmente, que não se pressente! Para quem sabe namorar tudo é instrumento: uma criança que se tem ao cala e se beija, um papagaio com o qual se fala à janela, um mico que brinca sabre o ombro, um lenço que volteia na mão, uma fiar que se desfolha — tudo, enfim! E até quantas vezes o namorada desprezada serve de instrumento para se namorar a outrem! Pobres tolas, que levam a culpa e vivem logrados, em proveito alheia! Se te quisesse eu explicar e patentear as ardis e espertezas de certas meninas que passam par sérias e que são refinadíssimas velhacas, não acabaria hoje. Vive na certeza, minha irmã, que as moças dividem-se em duas classes: sonsas e sinceras... Mas que todas namoram.
Chiquinha — Não questionarei contigo. Demos que assim seja, quero mesmo que o seja. Que outro futuro esperam as filhas-famílias, senão o casamento? É a nossa senatoria, como costumam dizer. Os homens não levam a mal que façamos da nossa parte todas as diligências para alcançarmos este fim; mas o meio que devemos empregar é tudo. Pode ele ser prudente e honesto, ou tresloucado como o teu.
Maricota — Não dizia eu que havia sonsas e sinceras? Tu és das sonsas.
Chiquinha — Pode ele nos desacreditar, como não duvido que o teu te desacreditará.
Maricota — E por quê?
Chiquinha —
Namoras a muitos.
(continua...)
PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.