Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
VIOLANTE – O irmão da vizinha não é empregado público e sustenta a mãe e a
irmã com o seu trabalho.
BRAZ - Mas não tem a honra de sentar-se à mesa do orçamento; é um original que com a vacina do trabalho independente preservou-se da emprego mania. Casimiro é sábio. Mário deve andar trocando as pernas até que o governo lhe dê, à custa do Estado, um par de muletas.
CASIMIRO – Não os posso sofrer mais: vocês entendem-se admiravelmente:
nasceram um para o outro: foi pena não se terem casado... Vejam se ainda é tempo.
VIOLANTE – Antes uma boa morte.
BRAZ – De acordo, madrinha. (Casimiro sai pelo portão).
CENA II
VIOLANTE e BRAZ
VIOLANTE – Por fim de contas no meu tempo não era assim.
BRAZ – A madrinha dá forte e rijo, mas há de cansar. Casimiro é incorrigível, e nesta casa toda a família padece, porque a cabeça desatina: eu já cansei de ralhar; a madrinha também há de cansar.
VIOLANTE – Não hei de; sou teimosa, cumpro meu dever, e agora tenho privilégio.
BRAZ – Privilégio? para ralhar?
VIOLANTE – Sim; enquanto fui pobre, se tivesse vindo morar com eles, creio que seria bem tratada; mas a campainha das minhas censuras acabaria por aborrecê-los, e eu me curvaria à imposição de silêncio; prudente, deixei-me sempre na companhia do meu bom tio e padrinho, e hoje, e desde quatro meses rica herdeira de quinhentos contos de réis por morte desse meu segundo pai, são eles, meu irmão e sobrinhos, que moram comigo, e a velha celibatária elevou-se a irmã e tia veneranda com direito de dizer tudo quanto lhe vier à cabeça.
BRAZ – Anda por aí boa dose de injustiça: Casimiro e seus filhos nunca a esqueceram nem a desamaram.
VIOLANTE – Agora, porém, adoram-me... por fim de contas...
BRAZ – Alto lá, madrinha! fui triste enjeitado que seus pais adotaram e educaram, e a lembrança do benefício não me permite ouvir levantar aleives ao filho e aos netos de meus pais de adoção: são uns cabeças de vento, mas corações de ouro sem liga.
VIOLANTE – Sabes que os amo; não confio porém no juízo deles, e a prova é que não foi a Casimiro, e sim a ti que entreguei a administração dos meus bens e a guarda da minha riqueza.
BRAZ – Deus sabe se teve razão: só o futuro lhe poderá dizer que imenso miolo de hipocrisia e de egoísmo se esconde por baixo desta bonita casca fisionômica.
VIOLANTE – Por fim de contas farei a experiência.
BRAZ – Pois que me preferiu a seu irmão legítimo, que é um velho gaiteiro, mas homem honrado, merecia que, em minha qualidade de procurador de causas, eu aproveitasse na administração da sua fortuna a lição do epigrama de Bocage. Ah! mal pensa no que fez e ao que se expôs! a madrinha não sabe o que vai pelo mundo; a falta de dinheiro tem desenfreado a sagrada fome, sacra fames auri, que é coisa nunca vista; olhe há uma epidemia de pouca vergonha, um frenesi de viver à custa alheia, uma choleramorbus de velhacaria et coetera, et coetera, que a cidade do Rio de Janeiro está cheia de... et coetera, madrinha, et coetera.
VIOLANTE – Pões-me tonta.
BRAZ – E é para tontear! quero dizer que em caso de epidemia ninguém é
atacado por sua vontade: as gentes não são de ferro, e a madrinha, confiando-me a gerência da sua riqueza, expôs-me cruelmente ao contágio epidêmico.
VIOLANTE – Tens língua de serpente, Braz; mas fala-me sério: o mundo chegou deveras a tanta baixeza?
BRAZ – Sim, madrinha; o mundo subiu a essas alturas.
VIOLANTE – Santo Breve! no meu tempo não era assim.
BRAZ – Era; cada época tem suas moléstias sociais; no nosso tempo de outrora havia deformidades que horrorizavam; o meu tempo de hoje é outra coisa: é uma estragação que faz gosto! à parte a epidemia reinante, de que há pouco falei, brilham os costumes com todo o esplendor da lua da civilização em quarto minguante e com todo o impulso do progresso em andar de caranguejo.
VIOLANTE – Por fim de contas...
BRAZ – As idades se confundem: salvas as exceções importunas, os meninos vão para a escola pendurados em grandes charutos, e marcam as lições com as cartinhas das namoradas; os jovens fumam ao lasquenet, instruem-se no alcazar, e ceiam em colégios noturnos; os velhos agarram-se à mocidade postiça e no furor de remoçar tropeçam no ridículo e jogam as cambalhotas, como na infância; é o mundo às avessas:
não acha que tem sua graça?
VIOLANTE – E as senhoras?
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.