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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Declinava a tarde do dia 6 de agosto de 1844: o tempo estava chão e bonançoso; e, contudo, meia cidade do Rio de Janeiro profetizava tempestade para o correr da noite. Como isso era, estando como de feito estava o Pão de Açúcar com sua cabeça desnublada e livre da tal carapuça de fumo com que se agasalha quando prevê mau tempo, é o que ainda agora mesmo poderiam muito bem explicar os habitantes desta bela corte, se não fossem, honrosas exceções para um lado, tão esquecidos dos acontecimentos que se passam em nossa terra, como às vezes finge sê-lo das contradanças, que prometeu a cavalheiros, que lhe não são do peito, uma mocinha do grande tom.

Mas, pois que, segundo cremos, o caso em questão não se acha suficientemente lembrado justo é, mesmo para que por tão pouco a ninguém pareça ter cabido honras de profeta, dizer que, se a atmosfera não estava carregada, a antecipação e o espírito de mesquinho partido haviam exalado vapores, que, condensando-se sobre o ânimo do público, deixavam prognosticar uma borrasca moral.

Ora, assim como muitas vezes sucede, que rosnam surdamente as nuvens, quando está prestes para rebentar alguma trovoada, assim também notava-se que na tarde de que se fala, ouvia-se um zunido incessante, e do meio dele por vezes ressaltavam as palavras — teatro... direita... esquerda... aplausos... pateada... — e muitas outras tais quais as que deram lugar à cena seguinte passada em um hotel, que nos é muito conhecido, e que se acha estabelecido na rua, que, por se chamar — Direita —, efetivamente representa a antítese do próprio nome.

Dois moços acabam de entrar nesse hotel. Um deles, que para o diante melhor conheceremos, trajava casaca e calças de pano preto, colete de seda de xadrez cor de cana, sobre o qual se deslizava finíssima corrente de relógio; gravata também de seda e de uma bela cor azul; trazia ao peito um rico solitário de brilhante; na mão esquerda suas luvas de pelica cor de carne, na direita uma bengala de unicórnio com belíssimo castão de ouro; calçava finalmente botins envernizados. Esse moço, cuja tez devia ser alva e fina, mas que mostrava ter sofrido por muitos dias os ardores do sol, era alto e bem-apessoado; seu rosto, sem ser verdadeiramente belo, causava ainda assim um interesse; ele tinha os cabelos pretos, os olhos da mesma cor, mas pequenos, e sem fogo. Entrou no hotel, como levado à força pelo seu amigo; e, sentando-se junto a uma mesa defronte dele, tomou um jornal e começou a ler.

O outro, que nos não deverá obséquio de ser aqui descrito, estava dando as suas ordens a um servente do hotel, quando ouviu a voz do seu amigo.

— Ana Bolena!... Bravíssimo!... caiu-me a sopa no mel! ardia por chegar ao Rio de Janeiro, principalmente para ir ao teatro italiano, e eis que, apenas chegado há duas horas, já leio um anúncio que realiza meus desejos; vou hoje à ópera.

— Já tens bilhete?...

— Não, mas saindo daqui mando ver uma cadeira.

— Não há mais.

— Então não há remédio... um camarote.

— Estão todos vendidos.

— Oh, diabo! irei para a geral.

— Nem um só bilhete resta, meu caro.

— Pois, deveras, o furor é tal?... paciência, vou encartar-me no camarote de algum amigo. — Não, que desse susto te livro eu: toma lá um bilhete de cadeira.

— E tu?...

— Eu hoje tenho muito o que fazer na platéia.

— Aceito, que não sou pobre soberbo; porém, que história é essa?... oh, Antônio, seria possível que te fizesses cambista?...

— Por quê?

— Vejo-te aí com um maço de bilhetes, que a menos que não seja agora moda dar aos porteiros uma dúzia de cada vez, que se entra para o teatro...

— Nada... nada... isto é para uns camaradas, que pus de mão para ir comigo à ópera.

— Como estás tão rico!... muitos parabéns!...

— Ah!... já sei que nada sabes do que por aqui vai: há dez meses fora do Rio de Janeiro, acabas de entrar na cidade tão simples e bisonho como um calouro nas aulas. Ora, dize lá; tu és Candianista ou Delmastrista?...

O Sr. Antônio fez esta pergunta em voz bastante inteligível; pois, um movimento quase geral se operou no hotel; os olhos do maior número dos que aí se achavam, fitaram-se nos dois parladores; um moço que na mesa fronteira jogava o dominó, ficou com uma peça entre os dedos e a mão no ar, imóvel, estático, como um epiléptico; um velho militar que próximo estava, e que para assoar-se já tinha posto o nariz em posição, deixou-se estar com o lenço estendido diante do rosto e preso entre as duas mãos, não desarranjou mesmo a horrível careta que se habituara a fazer na ação de limpar-se do monco, e assim como se achava, lançou os olhos por cima dos óculos, e os pregou na mesa da questão. — Dize-me tu primeiro, o que significa isso, respondeu aquele a quem fora dirigida a pergunta.

— Otávio, tornou com muito fogo o Sr. Antônio, pergunto-te de qual das duas primasdonas és tu partidário, se da Delmastro, se da Candiani.

(continua...)

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