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#Contos#Literatura Brasileira

Filosofia de um par de botas

Por Machado de Assis (1878)

BOTA DIREITA. Da viúva, para quem o dr. Crispim quebrava muito os olhos? Lembra-me que estivemos juntas, num jantar do comendador Plácido. As botinas viram-nos logo, e nós daí a pouco as vimos também, porque a viúva, como tinha o pé pequeno, andava a mostrá-lo a cada passo. Lembra-me também que, à mesa, conversei muito com uma das botinas. O dr. Crispim sentara-se ao pé do comendador e defronte da viúva; então, eu fui direita a uma delas, e falamos, falamos pelas tripas de Judas... A princípio, não; a princípio ela fez-se de boba; e toquei-lhe no bico, respondeu-me zangada: “ Mas eu insisti, perguntei-lhe por onde tinha andado, disse-lhe que estava ainda muito bonita, muito conservada; ela foi-se amansando, buliu com o bico, depois com o tacão, pisou em mim, eu pisei nela e não te digo mais... 

BOTA ESQUERDA. Pois é justamente o que eu queria contar... 

BOTA DIREITA. Também conversaste? 

BOTA ESQUERDA. Não; ia conversar com a outra. Escorreguei devagarinho, muito devagarinho, com cautela, por causa da bota do comendador. 

BOTA DIREITA. Agora me lembro: pisaste a bota do comendador. 

BOTA ESQUERDA. A bota? Pisei o calo. O comendador: Ui! As senhoras: Ai! Os homens: Hein? E eu recuei; e o dr. Crispim ficou muito vermelho, muito vermelho... BOTA DIREITA. Parece que foi castigo. No dia seguinte o dr. Crispim deu-nos de presente a um procurador de poucas causas. 

BOTA ESQUERDA. Não me fales! Isso foi a nossa desgraça! Um procurador! Era o mesmo que dizer: mata-me estas botas; esfrangalha-me estas botas! 

BOTA DIREITA. Dizes bem. Que roda viva! Era da Relação para os escrivães, dos escrivães para os juízes, dos juízes para os advogados, dos advogados para as partes (embora poucas), das partes para a Relação, da Relação para os escrivães... 

BOTA ESQUERDA. Et coetera. E as chuvas! e as lamas! Foi o procurador quem primeiro me deu este corte para desabafar um calo. Fiquei asseada com esta janela à banda. 

BOTA DIREITA. Durou pouco; passamos então para o fiel de feitos, que no fim de três semanas nos transferiu ao remendão. O remendão (ah! já não era a Rua do Ouvidor!) deu-nos alguns pontos, tapou-nos este buraco, e impingiu-nos ao aprendiz de barbeiro do Beco dos Aflitos. 

BOTA DIREITA. Com esse havia pouco que fazer de dia, mas de noite... 

BOTA ESQUERDA. No curso de dança; lembra-me. O diabo do rapaz valsava como quem se despede da vida. Nem nos comprou para outra coisa, porque para os passeios tinha um par de botas novas, de verniz e bico fino. Mas para as noites... Nós éramos as botas do curso... 

BOTA DIREITA. Que abismo entre o curso e os tapetes do dr. Crispim...

BOTA ESQUERDA. Coisas! 

BOTA DIREITA. Justiça, justiça; o aprendiz não nos escovava; não tínhamos o suplício da escova. Ao menos, por esse lado, a nossa vida era tranqüila. 

BOTA ESQUERDA. Relativamente, creio. Agora, que era alegre não há dúvida; em todo caso, era muito melhor que a outra que nos esperava. 

BOTA DIREITA. Quando fomos parar às mãos... 

BOTA ESQUERDA. Aos pés. 

BOTA DIREITA. Aos pés daquele servente das obras públicas. Daí fomos atiradas à rua, onde nos apanhou um preto padeiro, que nos reduziu enfim a este último estado! Triste! triste! 

BOTA ESQUERDA. Tu queixas-te, mana? 

BOTA DIREITA. Se te parece! 

BOTA ESQUERDA. Não sei; se na verdade é triste acabar assim tão miseravelmente, numa praia, esburacadas e rotas, sem tacões nem ilusões — por outro lado, ganhamos a paz, e a experiência. 

BOTA DIREITA. A paz? Aquele mar pode lamber-nos de um relance.

BOTA ESQUERDA. Trazer-nos-á outra vez à praia. Demais, está longe.

BOTA DIREITA. Que eu, na verdade, quisera descansar agora estes últimos dias; mas descansar sem saudades, sem a lembrança do que foi. Viver tão afagadas, tão admiradas na vidraça do autor dos nossos dias; passar uma vida feliz em casa do nosso primeiro dono, suportável na casa dos outros; e agora... 

BOTA ESQUERDA. Agora quê? 

BOTA DIREITA. A vergonha, mana. 

BOTA ESQUERDA. Vergonha, não. Podes crer, que fizemos felizes aqueles a quem calçamos; ao menos, na nossa mocidade. Tu que pensas? Mais de um não olha para suas idéias com a mesma satisfação com que olha para suas botas. Mana, a bota é a metade da circunspecção; em todo o caso é a base da sociedade civil... 

BOTA DIREITA. Que estilo! Bem se vê que nos calçou um advogado. 

BOTA ESQUERDA. Não reparaste que, à medida que íamos envelhecendo, éramos menos cumprimentadas? 

BOTA DIREITA. Talvez. 

BOTA ESQUERDA. Éramos, e o chapéu não se engana. O chapéu fareja a bota... Ora, pois! Viva a liberdade! viva a paz! Viva a velhice! (A Bota Direita abana tristemente o cano). Que tens? 

BOTA DIREITA. Não posso; por mais que queira, não posso afazer-me a isto. Pensava que sim, mas era ilusão... Viva a paz e a velhice, concordo; mas há de ser sem as recordações do passado... 

BOTA ESQUERDA. Qual passado? O de ontem ou de anteontem? O do advogado ou o do servente? 

BOTA DIREITA. Qualquer; contanto que nos calçassem. O mais reles pé de homem é sempre um pé de homem. 

BOTA ESQUERDA. Deixa-te disso; façamos da nossa velhice uma coisa útil e respeitável. 

(continua...)

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