Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Felicidade pelo casamento

Por Machado de Assis (1866)

Que me direis vós, meus livros? Queixas e consolações. Dais-me escrito o que eu tenho a falar no interior. Queixas de um sentir sem eco, consolações de uma esperança sem desfecho. Que havíeis de dizer mais? Nada é novo; o que é, já foi e há de vir a ser. Destas dores sentir-se-ão sempre e não deixarão de sentir-se. Círculo vicioso, problema sem solução! 

Lembrei o Eclesiastes. Que me dirá esse tesouro de sabedoria? 

— Todas as coisas têm seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito. 

Há tempo de nascer e de morrer.
Há tempo de plantar e tempo de colher.
Há tempo de enfermar e tempo de sarar.
Há tempo de chorar e tempo de rir.
Há tempo de destruir e tempo de edificar.
Há tempo de afligir e tempo de se alegrar.
Há tempo de espalhar pedras e tempo de as ajuntar.
Há tempo de guerra e tempo de paz. 

Assim fala o Eclesiastes. A cada coisa um tempo: eis tudo. Qual será o tempo desta coisa? Qual será o tempo daquela? Tal é a dúvida, tal é a incerteza. Destruo agora; quando edificarei? Aflijo-me; quando me hei de alegrar? Semeio; quando hei de colher? Virá o tempo para isso... Quando? Não sei! A certeza é uma: a certeza do presente; a da destruição, a da aflição, a da plantação. O resto — mistério e abismo. Não! Entre tantas incertezas, entre tantas ilusões, uma certeza há; há um tempo que há de vir, fatalmente, imperiosamente: o tempo de morrer. Nasci, morrerei. Oh, ciência humana! Entre a destruição e a edificação, entre a tristeza e a alegria, entre o semear e o colher, há o tempo que não é de uma nem de outra coisa o tempo absoluto, o tempo que marca a todas as horas uma vida e uma morte, um vagido e uma agonia; o tempo do fim, infalível, fatal. 

* * * 

Do semear depende a colheita. Mas que terra é esta que tanta gasta em restituir o que se lhe confiou? Semeei. Dividi minha alma, esmigalhei a minha vida, e às mãos-cheias lancei os melhores fragmentos a esmo, na terra úbera e no chão pedregoso. Foi preciso cantar, cantei: era dócil a imaginação e eu deixei-a correr à solta; foi preciso chorar, chorei; as lágrimas podiam comprar a ventura; foi preciso confiar, confiei; a confiança prepara o coração e legitima os desejos. Mas ela, a planta desejada, por que se deteve no seio da terra? 

* * * 

Pareceu-me um dia vir surgindo verde, viçosa, como as esperanças de que eu então enchia a minha alma. Foi ilusão? Sonhava apenas? Foi realidade? Ela a sair e eu a fechar os olhos para a não ver logo, gozá-la toda, não vexá-la, não emurchecê-la com o meu hálito ou amofiná-la com o meu olhar sequioso. Quando os abri não a vi mais. Quebrou-a o vento. Foi simples ilusão de meu desejo? Não sei; sei que desaparecera. 

* * * 

Há tempo de guerra e de paz, diz o Eclesiastes. 

E no meio da guerra é que melhor se apreciam os benefícios da paz. Em peleja ando, incessante e ardente. Tréguas tenho tido; a paz não passou ainda de um sonho. 

Os inimigos são aos centos. Luto pela dignidade, pela tranqüilidade, pela felicidade. Luto por essa paz benéfica, cujo tempo há de vir no tempo em que vier. O sangue esvai-se, a confiança esmorece, o valor fraqueia; mas a luta é necessária até o tempo da paz. Quando? Nada sei... 

As páginas que deixo transcritas mostram bem o estado do meu espírito. Misturava-se à dor do afeto perdido uma certa ânsia de felicidade e de paz que aceitaria logo, ainda mesmo pelas mãos de outrem que não as da mulher sonhada. 

O tempo trouxe a sua ação benéfica ao meu coração. Pouco depois, em uma noite de conforto, lançava eu ao papel as seguintes linhas: 

* * * 

Volta-se de um amor, escreve um humorista, como de um fogo de artificio: triste e aborrecido. Tal é em resumo a minha situação. E feliz o homem que, após um sonho de longos dias, não traz no coração a mínima gota de fel. Pode olhar sobranceiro para as contingências da vida e não apreender-se de vãos terrores ou vergonhosas pusilanimidades. 

É certo que as naturezas capazes de resistir ao choque das paixões humanas são inteiramente raras. O mundo regurgita de almas melindrosas, que, como a sensitiva dos campos, se contraem e murcham ao menor contacto. Sair salvo e rijo dos combates da vida é caso de rara superioridade. Esta glória, esta felicidade, ou esta honra, tive-a eu, que, nas mãos da mais vesga fatalidade, nada deixei do que recebi de puro e verdadeiramente perdurável. 

A vida é um livro, no dizer de todos os poetas. Negro para uns, dourado para outros. Não o tenho negro; mas o parênteses que se me abriu no meio das melhores páginas, esse foi angustioso e sombrio. 

Nunca entendi o livro de Jó, como então. Só então calculei que a miséria depois da opulência era um mal maior do que a miséria desde o berço. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →