Por Machado de Assis (1876)
— Deixa estar, concluiu a mãe; eu saberei disso na missa de domingo. Com esta ameaça terminou de todo o mau tempo doméstico. O atmosférico havia já acabado. As irmãs de Pedro, Cecília e Luísa, foram para a janela; o irmão pequeno, Luís, fez umas quatro canoas de papel e mandou pô-las na água das sarjetas da rua, indo ele vê-las da porta; enquanto D. Emiliana dava ordem para a merenda, e Pedro relia uma tradução de Gil Brás.
II
A leitura de Gil Brás não durou muito tempo, se é que durou algum, porque até hoje não está averiguado que o jovem Pedro tivesse naquela tarde o espírito na mesma direção dos olhos. Os olhos corriam pelo papel e a mão voltava tão regularmente a página que era difícil dizer que eles não liam. Há todavia razões para crer que o espírito vagueava distante do livro. Pois é pena que fizesse dessas escapulas, deixando um corpo gentil, como era o dele, forte, sadio, e gracioso sem afetação; sobretudo, não se compreende que o espírito de Pedro não quisesse acompanhar no papel aquele par de olhos rasgados em forma de amêndoa, escuros e luminosos; uns olhos que tinham feito pecar a mais de uma moça do bairro, que o padre Sá namorava para o céu.
A noite veio clara e estrelada; e não tardou que a lua batesse de chapa nos telhados e calçadas úmidas da chuva da tarde. D. Emiliana foi fazer meia na sala de costura, à luz de duas velas de espermacete, enquanto Luís recordava a lição, as meninas cosiam, e Pedro lia em voz alta uma novela que a mãe interrompia com reflexões substanciais de moral e disciplina.
No meio deste quadro caseiro, bateram à porta, e um escravo veio dizer que estava ali o padre Sá! Leitura e costura foram interrompidas; D. Emiliana tirou os óculos de prata e levantou-se à pressa tanto quanto permitia o anafado das formas, e saiu a receber a visita. Pedro acompanhou-a com igual solicitude.
— Seja muito bem aparecido, reverendo! disse D. Emiliana, beijando a mão ao padre e convidando-o a entrar na sala. Há mais de dois meses que não nos dá o prazer e a honra de vir abençoar as suas devotas.
— Deus as há de ter abençoado como merecem, respondeu o padre Sá. Já a este tempo tinha o escravo acendido as arandelas da sala de visitas, onde o padre entrou logo depois, encostando a bengala a um canto e pondo o chapéu sobre uma cadeira. As meninas vieram beijar a mão ao sacerdote; D. Emiliana conduziu-o para o sofá; toda a família o rodeou.
Passei por aqui, disse o sacerdote, e lembrou-me vir saber se o nosso Pedro apanhou a grande chuva desta tarde.
— Toda, padre-mestre, respondeu o moço.
— Logo vi; teimou em vir apesar de lhe dizer que não tinha tempo de chegar a casa... — Valeu-me o seu capote.
— Não havia de valer muito.
— Chegou, deveras, todo molhado, observou D. Emiliana. E uma vez que o sr. padre te pedia que ficasses, devias ter ficado.
— A resposta que ele me deu é que a senhora estaria assustada, supondo que algum desastre... Aprovei-o, quando lhe ouvi esta razão.
D. Emiliana olhou para o filho com ternura. Aquele olhar vingara-o da repreensão com que fora recebido. A conversa versou sobre assuntos gerais, mas todos de devoção e caridade. Tratou da próxima festa do Natal; veio a pêlo mostrar ao padre Sá a toalha que D. Emiliana pretendia oferecer para o altar de Nossa Senhora das Dores, rica toalha de linho com entremeio de crivo e babadinhos de renda, não bruxelas nem malines, mas obra toda das mãos da prendada devota. Devota, era-o ela no verdadeiro e puro sentido da palavra, e nunca se dera mal com isso.
Esgotados aqueles assuntos, o padre Sá disse a D. Emiliana que tinha de lhe falar sobre coisas de igual natureza, mas que pediam menos publicidade. A dona da casa fez retirar os filhos.
— Deixe ficar o Pedro, disse baixinho o padre; ele não é demais.
Ficaram os três. Dona Emiliana, cuja curiosidade estava aguçada, arregalou os olhos e preparou os ouvidos para saber que assunto era aquele que exigia conferência particular. Algum pecado seria, alguma culpa, embora venial, do seu querido Pedro? O padre Sá não lhe deu muito tempo às reflexões, porque, mal a porta da sala se fechou, concluiu uma pitada começada e falou nestes termos:
— D. Emiliana, conheço-a há alguns anos, e tenho-a sempre visto pontual no serviço de Deus, e zelosa no cumprimento dos seus deveres de cristã e católica. — Espero em Deus que me não há de desamparar, disse D. Emiliana, curvando a cabeça.
— Não há de quê, ele nunca desampara os bons...
— Mas que será, reverendíssimo? Dar-se-á caso que o meu Pedro... Dizendo isto, D. Emiliana voltou a cabeça para o filho, que lhe ficava à esquerda e tinha os olhos no chão.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.