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#Contos#Literatura Brasileira

Decadência de dois grandes homens

Por Machado de Assis (1873)

— Obrigado; eu só fumo dos meus; são charutos opiados, grande recurso para quem quer esquecer um grande crime. Quer um? 

— Não tenho crimes. 

— Não importa; colherá prazer em fumá-lo. 

Aceitei o charuto, e guardei-o. 

— Consente que o guarde? 

— Pois não, respondeu ele. 

Outro silêncio mais prolongado. Vi que o homem não estava para conversa; a fronte se lhe entristecia cada vez mais como a Tijuca quando está para cair temporal. Ao cabo de alguns minutos, disse-lhe eu: 

— Simpatizo muito com o senhor, quer que eu seja seu amigo? 

Luziram os olhos do homem. 

— Meu amigo? disse ele; oh! por que não? preciso de um, mas de um amigo verdadeiro. Estendeu-me a mão, que eu lhe apertei com afeto. 

— Como se chama? perguntei eu. 

Sorriu o velho, soltou das cavernas do peito um longo e magoadíssimo suspiro, e respondeu-me: 

— Jaime. E o senhor? 

— Miranda, doutor em medicina. 

— É brasileiro? 

— Sim, senhor. 

— Meu patrício então? 

— Creio. 

— Meu patrício!... 

E dizendo isto o velho teve um sorriso tão infernal, tão sombrio, tão lúgubre, que eu tive idéia de me ir embora. Reteve-me a curiosidade de chegar ao fim. Jaime não prestava atenção ao que se passava ali; e exclamava de quando em quando: — Os idos de março! os idos de março! 

— Olhe, meu amigo sr. Jaime, quer ir dar um passeio comigo? 

Aceitou sem dizer palavra. Quando nos achamos na rua perguntei-lhe se preferia algum lugar.

Respondeu-me que não. 

Andamos ao acaso; eu procurava travar conversa a fim de distrair o homem dos idos de março; e consegui a pouco e pouco que se tornasse mais conversador. Era então apreciável. Não falava sem gesticular com o braço esquerdo, com a mão fechada, e o dedo polegar aberto. Contava anedotas de mulheres e mostrava-se grande apreciador do sexo amável; era exímio na descrição da beleza feminina. A conversa passou à história, e Jaime exaltou os tempos antigos, a virtude romana, as páginas de Plutarco, Tito Lívio e Suetônio. Sabia o Tácito de cor e dormia com Virgílio, disse ele. Seria um doido, mas conversava com muito juízo. 

Sobre a tarde tive fome e convidei-o a jantar. 

— Comerei pouco, respondeu Jaime; estou indisposto. Ai! os idos de março! Jantamos em hotel, e eu quis acompanhá-lo a casa, que era na Rua da Misericórdia. Consentiu nisso com verdadeira explosão de alegria. A casa dizia com o dono. Duas estantes, um globo, vários alfarrábios espalhados no chão, uma parte sobre uma mesa, e uma cama antiga. 

Eram seis horas da tarde quando entramos. Jaime tremia quando chegou à porta da sala. — Que tem? perguntei-lhe eu. 

— Nada, nada. 

Mal entrávamos na sala, pulou da mesa, onde se achava acocorado, um enorme gato preto. Não fugiu; saltou aos ombros de Jaime. Este tremeu todo e procurou aquietar o animal passando-lhe a mão pelo lombo. 

— Sossega, Júlio! dizia ele, enquanto eu com o olhar inspecionava o albergue do homem e procurava cadeira onde me sentasse. 

O gato pulou depois à mesa e fitou em mim dois grandes olhos verdes, fulminantes, interrogadores; compreendi o susto do velho. O gato era modelo na espécie; tinha certo ar de ferocidade da onça, de que era miniatura acabada. Era todo preto, pernas compridas, longas barbas; gordo e alto, tendo uma extensa cauda que brincava no ar dando saltos caprichosos. Tive sempre antipatia aos gatos; aquele causava-me horror. Parecia-me que ia saltar sobre mim e esganar-me com as largas patas. 

— Mande o seu gato embora, disse eu a Jaime. 

— Não faz mal, respondeu-me o velho. Júlio César, não é verdade que tu não fazes mal a este senhor? 

O gato voltou-se para ele; e Jaime beijou repetidas vezes a cabeça do gato. Do susto passara à efusão. Compreendi que seria pueril assustar-me quando o animal era tão manso, ainda que não compreendi o medo do velho quando entrou. Haveria alguma coisa entre aquele homem e aquele bicho? Não pude explicá-lo. Jaime acariciou o gato enquanto eu por me distrair lia o título das obras que estavam nas estantes. Um dos livros tinha no lombo este título: Metempsicose. 

— Acredita na metempsicose? perguntei eu. 

O velho, que estava ocupado em tirar o paletó e vestir um chambre de chita amarela, interrompeu aquele serviço, para dizer-me: 

— Se acredito? Em que queria o senhor que eu acreditasse? 

— Um homem instruído, como o senhor, não devia crer em tolices desta ordem, respondi abrindo a livro. 

Jaime acabou de vestir o chambre, e veio a mim. 

(continua...)

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