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#Baladas#Literatura Brasileira

Sabina

Por Machado de Assis (1875)

A Faculdade, o pergaminho e o resto.


***


Súbito erige o corpo a ingênua virgem;

Com as mãos, os cabelos sobre a espádua

Deita, e rasgando lentamente as ondas,

Para a margem caminha, tão serena,

Tão livre como quem de estranhos olhos

Não suspeita a cobiça...Véu da noite,

Se lhos cobrira, dissipara acaso

Uma história de lágrimas. Não pode

Furtar-se Otávio à comoção que o toma;

A clavina que a esquerda mal sustenta

No chão lhe cai; e o baque surdo acorda

A descuidada nadadora. Às ondas

A virgem torna. Rompe Otávio o espaço

Que os divide; e de pé, na fina areia,

Que o mole rio lambe, ereto e firme,

Todo se lhe descobre. Um grito apenas

Um só grito, mas único, lhe rompe

Do coração; terror, vergonha... e acaso

Prazer, prazer misterioso e vivo

De cativa que amou silenciosa,

E que ama e vê o objeto de seus sonhos,

Ali com ela, a suspirar por ela.


***


“Flor da roça nascida ao pé do rio,

Otávio começou — talvez mais bela

Que essas belezas cultas da cidade,

Tão cobertas de jóias e de sedas,

Oh! não me negues teu suave aroma!

Fez-te cativa o berço; a lei somente

Os grilhões te lançou; no livre peito

De teus senhores tens a liberdade,

A melhor liberdade, o puro afeto

Que te elegeu entre as demais cativas,

E de afagos te cobre! Flor do mato,

Mais viçosa do que essas outras flores

Nas estufas criadas e nas salas,

Rosa agreste nascida ao pé do rio

Oh! não me negues teu suave aroma!”


***


Disse, e da riba os cobiçosos olhos

Pelas águas estende, enquanto os dela,

Cobertos pelas pálpebras medrosas

Choram — de gosto e de vergonha a um tempo,

Duas únicas lágrimas. O rio

No seio as recebeu; consigo as leva,

Como gotas de chuva, indiferente

Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;

Que assim a natureza, ingênua e dócil

Às leis do Criador, perpétua segue

Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem

Padecer e saber que sente e morre.


***


Pela azulada esfera inda três vezes

A aurora as flores derramou, e a noite

Vezes três a mantilha escura e larga

Misteriosa cingiu. Na quarta aurora,

Anjo das virgens, anjo de asas brancas,

Pudor, onde te foste? A alva capela,

Murcha e desfeita pelo chão lançada,

Coberta a face do rubor do pejo,

Os olhos com as mãos velando, alçaste

Para a Eterna Pureza o eterno vôo.


***


Quem ao tempo cortar pudera as asas

Se deleitoso voa? Quem pudera

Suster a hora abençoada e curta

Da ventura que foge, e sobre a terra

O gozo transportar da eternidade?

Sabina viu correr tecidos de ouro

Aqueles dias únicos na vida

Toda enlevo e paixão, sincera e ardente

Nesse primeiro amor d’alma que nasce

E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,

Consciência; razão, tu lhe fechavas

A vista interior; e ela seguia

Ao sabor dessas horas mal furtadas

Ao cativeiro e à solidão, sem vê-lo

O fundo abismo tenebroso e largo

Que a separa do eleito de seus sonhos,

Nem pressentir a brevidade e a morte!


***


E com que olhos de pena e de saudade

Viu ir-se um dia pela estrada fora

Otávio! Aos livros torna o moço aluno,

Não cabisbaixo e triste, mas sereno

E lépido. Com ela a alma não fica

De seu jovem senhor. Lágrima pura,

Muito embora de escrava, pela face

Lentamente lhe rola, e lentamente

Toda se esvai num pálido sorriso

De mãe,


***


Sabina é mãe; o sangue livre

Gira e palpita no cativo seio

E lhe paga de sobra as dores cruas

Da longa ausência. Uma por uma, as horas

Na solidão do campo há de contá-las,

E suspirar pelo remoto dia

Em que o veja de novo... Pouco importa,

Se o materno sentir compensa os males.


***


Riem-se dela as outras; é seu nome

O assunto do terreiro. Uma invejosa

Acha-lhe uns certos modos singulares

De senhora de engenho; um pajem moço,

De cobiça e ciúme devorado,

Desfaz nas graças que em silêncio adora

E consigo medita uma vingança.

Entre os parceiros, desfiando a palha

Com que entrança um chapéu, solenemente

Um Caçanje ancião refere aos outros

Alguns casos que viu na mocidade

De cativas amadas e orgulhosas,

Castigadas do céu por seus pecados,

(continua...)

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