Por Gregório de Matos (1650)
E a todos os Prelados documento.
A CEGADA DO ILUSTRÍSSIMO SENHOR D. JOÃO FRANCO DE OLIVEIRA TENDO SIDO JÁ BISPO EM ANGOLA.
Hoje os Matos incultos da Bahia
Se não suave for, ruidosamente
Cantem a boa vinda do Eminente
Príncipe desta Sacra Monarquia.
Hoje em Roma de Pedro se Ihe fia
Segunda vez a Barca, e o Tridente,
Porque a pesca, que fez já no Oriente,
A destinou para a do meio-dia.
Oh se quisera Deus, que sendo ouvida
A Musa bronca dos incultos Matos
Ficasse a vossa púrpura atraída!
Oh se como Arion, que a doces tratos
Uma pedra atraiu endurecida,
Atraísse eu, Senhor, vossos sapatos!
A FROTA EM QUE VEIO O PALLIOLO DESTE GRANDE PRELADO.
Tal frota nunca viram as idades
De rota, desmembrada, e detençosa,
Mui Santa deve ser, e religiosa,
Pois de dous em dous veio, como frades.
Não Ihe duvido eu destas qualidades,
Se veio na Almirante venturosa
Aquela insígnia Santa, e poderosa,
Que à Mitra episcopal dá potestades.
Chegou o Pálio enfim, que de um Prelado,
Que nos veio a medida do desejo
Tão merecido foi, como esperado.
Eu ouço repicar, e folgar vejo:
Repica a Sé, o Carmo está folgado,
Louco devo eu de ser, pois não doidejo.
AO MESMO ILUSTRÍSSIMO SENHOR CHEGANDO DE VISITA A VILA DE S. FRANCISCO, ONDE Ò ESPERAVAM MUITOS CLÉRIGOS PARA TOMAREM ORDENS.
Bem-vindo seja, Senhor, Vossa Ilustríssima
A este sítio famoso do Seráfico,
Onde nesta canção de verso alcaico
Ouça a ovelha balar sua amantíssima
Aqui verá correr água claríssima
Do grande Sergipe rio antártico,
Onde para tomar o eclesiástico
Caráter Santo há gente prestantíssima.
Aqui de Pedro a rede celebérrima
Cuido, que fez os lanços hiperbólicos,
Que na Bíblia se lêem Santa integérrima.
Porque estes Pescadores tão católicos
Nunca uma pesca fazem tão pulquérrima,
Que os buchos nos não deixem melancólicos.
A MAGNIFICÊNCIA COM QUE OS MORADORES DAQUELA VlLA RECEBERAM O DITO SENHOR COM VÁRIOS ARTIFÍCIOS DE FOGO POR MAR, E TERRA CONCORRENDO PARA A DESPESA O VIGÁRIO.
pareceram tão belas
no mar canoas, e truzes,
que se o céu é mar de luzes,
o mar era um céu de estrelas:
era uma armada sem velas
movida de outro elemento,
era um prodígio, um portento
ver com tanto desafogo
esta navegar com fogo,
se outras arribam com vento.
Sua Ilustríssima estava
assustado sobre absorto,
porque via um rio morto
o fogo, em que se abrasava:
grande cuidado Ihe dava ver,
que o mar morria então
infamado na opinião,
e como um judeu queimado,
sendo, que o mar é sagrado,
que inda é mais que ser cristão.
Lá no vale ardia o ar,
e por ser, comua a guerra,
no mar há fogo de terra,
na terra há fogo do mar:
toda a esfera a retumbar
fazia correspondência,
e com alegre aparência
luzia na ardente empresa
fogo do ar por alteza,
e do mar por excelência.
Em cima as rodas paravam,
que varia a fortuna toda
desandava a sua roda,
e as do fogo não paravam:
os mestres se envergonhavam,
que era Lourenço, e Diogo:
e eu vi, que a Lourenço logo
a face se quebrantava,
com que a mim mais me queimava
o seu rosto, que o seu fogo.
Deu-se fogo em conclusão
a uma roda de encomenda,
foi como a minha fazenda,
que ardeu num abrir de mão:
estava em meio do chão
um rasto, para que ardesse
uma câmara, e parece,
que uma faísca caiu,
disparou: quem jamais viu,
que o fogo em câmeras desse.
Era grande a multidão
do Clero, e dos Seculares,
que a graça destes folgares
consiste na confusão:
Sua llustríssima então
se foi, que o fogo não zomba,
aqui queima, ali arromba:
segue-lhe o vigário os trilhos,
que as rodas não tinham filhos
mas pariam muita bomba.
A gente ficou pasmada,
porque viu a gente toda,
que era a resposta da roda
de bombarda respostada:
ficou a turba enganada,
porque enfim nos perturbar-nos:
mas todos nos alegramos,
que isto somos, e isso fomos,
que então alegres nos pomos
quando mais nos enganamos.
Entre o desar, e entre o risco
a noite alegre passou:
que mais noite! se a gabou
té o Padre São Francisco:
nas mais paróquias foi cisco,
foi sombra, foi ar, foi nada
do nosso Prelado a entrada,
e a desconfiança é vã
(continua...)
BRASIL. Crônica do Viver Baiano Seiscentista. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16657. Acesso em: 30 nov. 2025.