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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

As enfibraturas do Ipiranga

Por Mário de Andrade (1922)

Os tuins esperanças das nossas ilusões!

Suaviloquências entre as deliquescências

Dos sáfaros, aos raios do maior solar!...

Sobracemos as muralhas! Investe com os cardos!

Rasga-te nos acúleos! Tomba sobre o chão!

Hão-de vir valquírias para os olhos-fechados!

Anda! Não pares nunca! Aliena o duvidar

E as vacilações perpetuamente!

AS SENECTUDES TREMULINAS

(tempo de minuete)

Quem são estes homens?

Maiores menores

Como é bom ser rico!

Maiores menores.

Das nossas poltronas

Maiores menores

Olhamos as estátuas

Maiores menores

Do signor Ximenes

— O grande escultor

Só admiramos os célebres

E os recomendados também!

Quem tem galeria

Terá um Bouguereau!

Assinar o Lírico?

Elegância de preceito!

Mas que paulificância

Maiores menores

O Tristão e Isolda

Maiores menores

Preferimos os coros

Dos Orientalis —

mos Convencionais!

Depois os sanchismos

(Ai! gentes, que bom!)

Da alta madrugada

No largo do Paiçandu!

Alargar as ruas...

E as instituições?

Não pode! Não pode!

Maiores menores

Mas não há quem diga

Maiores menores

Quem são esses homens

Que cantam do chão?

(a orquestra súbito emudece, depois

duma grande gargalhada de Timbales)

MINHA LOUCURA

(recitativo e balada)

Dramas da luz do luar no segredo das frestas

Perquirindo as escuridões...

A traição das mordaças!

E a paixão oriental dissolvida no mel!...

Estas marés da espuma branca

E a onipotência intransponível dos rochedos!

Intransponivelmente! Oh!...

A minha voz tem dedos muito claros

Que vão roçar nos lábios do Senhor;

Mas as minhas tranças muito negras

Emaranharam-se nas raízes do jacarandá...

Os cérebros das cascatas marulhantes

E o benefício das manhãs serenas do Brasil!

(grandes glissandos de harpa)

Estas nuvens da tempestade branca

E os telhados que não deixam à chuva batizar!

Propositadamente! Oh!...

Os meus olhos têm beijos muito verdes

Que vão cair às plantas do Senhor;

Mas as minhas mãos muito frágeis

Apoiaram-se nas faldas do Cubatão...

Os cérebros das cascatas marulhantes

E o beneficio das manhãs solenes do Brasil

(notas longas de trompas)

Estas espigas da colheita branca

E os escalrachos roubando a uberdade!

Enredadamente! Oh!...

Os meus joelhos têm quedas muito crentes

Que vão bater no peito do Senhor;

Mas os meus suspiros muito louros

Entreteceram-se com a rama dos cafezais...

Os cérebros das cascatas marulhantes

E o benefício das manhãs gloriosas do Brasil!

(harpas, trompas, órgão)

AS SENECTUDES TREMULINAS

(iniciando uma gavota)

Quem é essa mulher!

É louca, mas louca

Pois anda no chão!

AS JUVENILIDADES AURIVERDES

(num crescendo fantástico)

Ódios, invejas, infelicidades!...

Crenças sem Deus! Patriotismos diplomáticos!

Cegar!

Desvalorização das lágrimas lustrais!

Nós não queremos mascaradas! E ainda menos

Cordões “Flor-do-abacate” das superfluidades!

Os tumultos da luz!... As lições dos maiores!...

E a integralização da vida no Universal!

As estradas correndo todas para o mesmo final!...

E a pátria simples, una, intangivelmente

Partindo para a celebração do Universal!

Ventem nossos desvarios fervorosos!

Fulgurem nossos pensamentos dadivosos!

Clangorem nossas palavras proféticas

Na grande profecia virginal! .

Somos as Juvenilidades Auriverdes!

A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo!

Cravos! mais cravos para nossa cruz!

OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS

(Tutti. O crescendo é resolvido

numa solene marcha fúnebre)

Para que escravos? Para que cruzes?

Submetei-vos à metrificação!

A verdadeira luz está nas corporações!

Aos maiores: serrote; aos menores: o salto...

E a glorificação das nossas ovações!

AS JUVENILIDADES AURIVERDES

(num clamor)

Somos as Juvenilidades Auriverdes!

A passiflora! o espanto! a loucura! o desejo!

Cravos! mais cravos para nossa cruz!

OS ORIENTALISMOS CONVENCIONAIS

(a tempo)

Para que cravos? Para que cruzes?

Submetei-vos à poda!

Para que as artes vivam e revivam

Use-se o regime do quartel!

(continua...)

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