Por Padre Antônio Vieira (1670)
91. E se um não é tão duro para quem o ouve, creio eu que não é menor a sua dureza para quem o diz, e tanto mais, quanto mais generoso for o coração e mais soberano o ânimo que o houver de pronunciar. Dos três anjos que apareceram a Abraão no vale de Mambré, os dois que representavam ministros partiram a executar o castigo nas cidades infames, e o terceiro, ou primeiro, que representava a Deus, ficou com Abraão. E porque o estar só por só com Deus é o melhor tempo e modo de negociar com ele, animouse então o santo patriarca a pedir a revogação da sentença. Eram as cidades cinco, e disse assim: – Senhor, se naquelas cinco cidades houver cinqüenta justos, não lhes perdoará Vossa Majestade? – Sim, perdoarei, – respondeu Deus ou o anjo em seu nome. – E se não chegarem a cinqüenta, e forem somente quarenta e cinco? – Também perdoarei. – Alentado com esta partida, continuou Abraão a outras menores. – E se forem só quarenta? – Perdoarei por quarenta. – E se trinta, Senhor? – Também por trinta, – E se vinte? Por vinte. – E se dez somente? – Também perdoarei por dez. – E dizendo isto, desapareceu o anjo: Abiitque Dominus (Gên. 18,33). Notável despedida! Não aguardou o anjo a que Abraão instasse mais e oferecesse ou rogasse com menor partido. A submissão, o comedimento, e a santa cortesania com que Abraão instava e passava de uma petição a outra é admirável, e digníssima de que todos a leiam, e de que o anjo só pelo ouvir se detivesse. Pois se tinha aguardado não só com paciência, mas com tão particular agrado, desde a primeira instância até a sexta, por que não esperou a sétima, por que se retirou e escondeu tão súbita e improvisamente? Por não chegar a dizer um não. A comissão que trazia o anjo eram dois decretos: um condicional, outro absoluto. O condicional, que se nas cinco cidades houvesse até dez justos, suspendesse o castigo: o absoluto, que se fossem menos de dez, executasse e ardessem, E como o anjo, que a seis petições de Abraão tão benevolamente tinha sempre dito sim, se ele continuasse e instasse com a sétima, era forçado a dizer não, por se não atrever a pronunciar esta duríssima palavra, desapareceu e escondeu-se. – Naquelas cinco cidades não há mais que quatro justos, de que consta a família de Lot, sobrinho de Abraão; se Abraão, como é certo, descer a este número, eu, diz o anjo, não lhe posso conceder o partido, e é força responder-lhe de não. Pois, para que nem eu tenha o dissabor de dizer tal palavra, nem ele o desgosto e pena de a ouvir, fugir e desaparecer é o melhor meio: Abiitque Dominus.
92. Os reis e príncipes soberanos representam e têm as vezes de Deus na terra, como tinha esse anjo. Também, como o mesmo anjo neste caso, não podem deixar de ouvir petições e ser importunados de requerimentos a que não devem deferir. E porque dizer não aos pretendentes é coisa tão dura para eles, como para o mesmo príncipe, será matéria mui própria deste lugar e deste Evangelho pôr hoje em questão e averiguar duas coisas: Primeira: se é conveniente e decente a um rei dizer não? Segunda: qual é o modo com que o deve dizer, no caso que convenha? Uma e outra resolução nos darão as palavras do tema: Non est meum dare vobis, sed quibus paratum esta Patre meo.
§II
Não é conveniente, nem decente à majestade, que pronuncie de palavra, ou firme com a pena um não. Tão vil é na mentira o sim, como honrado na verdade o não. A resposta dos atenienses a Filipe de Macedônia. D. João Segundo e as mercês do não dito a seu tempo.
93. Dos imperadores que precederam ao império de Trajano, diz o seu panegirista Plínio que desejavam muito ser rogados, e que todos lhes pedissem, só pelo gosto que tinham de dizer não: Priores principes a singulis rogari gestiebant, non tam praestandi animo, quam negandi. Mas como estes, que ele chama príncipes, verdadeiramente eram tiranos, e mais monstros da natureza humana que homens, excluído sem controvérsia este escândalo da razão e da humanidade, e começando a nossa questão pelas razões prováveis de duvidar; parece que não é conveniente nem decente à majestade e autoridade de um rei, que pronuncie de palavra ou firme com a pena um não. Ou o rei diz não porque não quer, ou porque não pode: se porque não quer, ofende o amor; se porque não pode, desacredita a grandeza. E se as petições e requerimentos são tais que se não devem conceder, entendam os pretendentes o não, mas não o ouçam; seja discurso seu, e não resposta ou resolução real. Mais decente negativa é para o governo, e menos descoberta desconsolação para os que requerem, que eles tomem por si o desengano. Desengane-os a dilação, desengane-os o tempo, e se de dia não cuidam, nem de noite sonham mais que no seu despacho, os mesmos dias e noites lhes digam o que se lhes não diz, e por elas saibam o que não querem entender. Sustentem-se na sua esperança, posto que falsa, e fique sempre inteiro ao príncipe o pundonor de que não negou. Se por este modo se estendem os requerimentos, e se entretêm e multiplicamos que vêm requerer, isso mesmo é um certo gênero de grandeza e autoridade haver muitos pretendentes. O que eles gastam e despendem sustenta a majestade da corte, e também as cortes dos que não são majestade. Já que pretendem sem merecimento, paguem as custas da sua ambição, e sirva-lhes a eles de castigo e aos mais de exemplo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.