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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

58. Para reduzir todo este ponto tão grande e tão importante a uma só máxima universal, tomei por fundamento a terceira tentação que propus, que é a maior que o demônio fez hoje a Cristo, e a maior que nunca se fez, nem há de fazer, nem pode fazer no mundo. Vencido primeira e segunda vez o demônio, não desesperou da vitória, porque lhe faltava ainda por correr a terceira lança em que mais confiava. Levou a Cristo ao cume de um monte altíssimo, e, mostrando-lhe dali todos os reinos e monarquias do mundo, com todas suas glórias e grandezas, com todas suas riquezas e delícias, com todas suas pampas e majestades, apontando em roda para todo este mapa universal, tão grande, tão formoso, tão vária, disse assim: Haec omnia tibi dabo, si cadens, adoraveris me: Tudo isto que vês te darei, se com o joelho em terra, me adorares. – Esta foi a última tentação do diabo, e esta foi a terceira vitória de Cristo. As armas com que o Senhor se defendeu, e o remédio que tomou nesta tentação, como nas outras, foram as palavras da Escritura Sagrada:

Dominum Deum tuum adorabis, et illi soli servies.3 É a Escritura Sagrada um armazém divino ande se acham todas as armas; é uma oficina medicinal, onde se acham todos os remédios; esta é aquela torre de Davi da qual disse Salomão: Mile clypei pendent ex ea, omnis armatura fortium,4 porque, como comenta S. Gregório: Universa nostra munitia in sacro eloquio continetur.5 Esta é aquela botica universal da qual diz S. Basílio: Ab Scriptura unusquisque tanquam ab officina medicinae appositum suae infirmitati medicamentum invenire poterit.6 E muito antes o tinha dito a Sabedoria: Neque herba, neque malagma sanavit, sed tuus Domine sermo, qui sanat omnia.7 Poderosíssimas armas e eficasíssimos remédios contra as tentações do demônio são as divinas Escrituras.

Mas como eu prego para todos, e nem todos podem menear estas armas, nem usar destes remédios, é o meu intento hoje inculcar-vos outras armas mais prontas, e outros remédios mais fáceis, com que todos possais resistir a todas as tentações. Na boca da víbora pôs a natureza a peçonha, e juntamente a triaga. Se quando a semente tentou aos primeiros homens souberam eles usar bem das suas mesmas palavras, não haviam mister outras armas para resistir nem outro remédio para se conservar no paraíso. O mais pronto e mais fácil remédio contra qualquer tentação do demônio é a mesma tentação. A mesma coisa oferecida pelo demônio é tentação; bem considerada por nós, é remédio. Isto hei de pregar hoje.

§II

Só esta última tentação nos pertence propriamente a nós, porque nela o demônio tentou a Cristo como se tentara a qual quer homem. O caso notável do cerco de Ostende. Por confissão do demônio, nossa alma vale mais que todo o mundo. A resposta de Demétrio a César. Esaú, um homem que vendeu e não pesou o que vendia.

59. Na primeira e na segunda tentação, tentou o demônio a Cristo como Filho de Deus; na terceira, como a puro homem. Por isso na terceira tentação não disse: Si Filius Dei es, como tinha dito na primeira e na segunda. Tentou a Cristo como se tentara a qualquer homem. Esta é a razão e a diferença, porque só esta última tentação nos pertence propriamente a nós. Mas, como poderá um homem, como poderá um filho de Adão resistir a uma tentação tão poderosa e tão imensa, como esta que o demônio fez a Cristo? A Adão fez-lhe tiro o demônio com uma maçã e derrubou-o; a Cristo fez-lhe tiro com o mundo todo: Ostendit ei omnia regna mundi. Mas sendo esta bala tirada a Cristo como homem, e dando em um peito de carne, foi tão fortemente rebatida, que voltou com maior força contra o mesmo tentador: Vade retro!8 Um dos casos mais notáveis que sucederam em nossos dias, no famoso cerco de Ostende, foi este.9 Estava carregada uma peça no exército católico; entra pela boca da mesma peça uma bala do inimigo, concebe fogo a pólvora, sai outra vez a bala com dobrada fúria, e como veio e voltou pelos mesmos pontos, foi-se empregar no mesmo que a tinha tirado. Oh! que bizarra e venturoso Vade retro! Assim havemos de fazer aos tiros do demônio. Volte outra vez a bala contra o inimigo, e vençamos ao tentador com a sua própria tentação. Não cortou Davi a cabeça ao gigante com a sua própria espada? Judite, sendo mulher, não degolou a Holofernes com a sua? Pois assim o havemos nós de fazer, nem necessitamos de outras armas, mais que as mesmas com que o demônio nos tenta.

(continua...)

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