Por Gregório de Matos (1696)
Deste castigo fatal,
que outro não vemos, que iguale,
serei Mercúrio das penas,
e Coronista dos males.
Tome esta notícia a Fama,
para que voe, e não pare,
e com lamentáveis ecos
soe numa, e noutra parte.
Ano de mil, e seis centos
oitenta e seis, se contar-se
pode por admiração,
escutem os circunstantes.
Chegou a morte à Bahia,
não cuidando, que chegasse,
aqueles, que não temiam
seus golpes por singulares.
Representou-nos batalha
com rebuços no disfarce,
facilitando a peleja
para segurar o saque.
Mas tocando a degolar
levou tudo a ferro, e sangue
divertindo a medicina
com variar os achaques.
Fez estrago tão violento
em discretos, ignorantes,
em pobres, ricos, soberbos,
que nenhum pode queixar-se.
Ao discreto não valeram
seus conceitos elegantes,
nem ao néscio o ignorar,
que ofensas hão de pagar-se.
Ao rico não reparou
de seu poder a vantagem,
nem ao soberbo o temido
nem ao pobre o humilhar-se.
Ao galante o ser vistoso,
nem ao polido o brilhante,
nem ao rústico descuidos,
que a vida há de acabar-se.
E se algum quis de manhã
rosa brilhante ostentar-se,
chegava a morte, e se via
funesta pompa de tarde.
Emudeceu as folias,
trocou em lamento os bailes,
cobriu as galas de luto,
encheu de pranto os lugares.
Foi tudo castigo em todos
por esta, e aquela parte,
se aos pobres faltou remédio,
aos ricos sobraram males.
Para o sexo feminino
veio a morte de passagem,
deixando-lhe, no que via
exemplo para emendar-se.
Nos inocentes de culpa
foi a morte relevante,
que tanto a inocência livra,
quanto condena o culpável.
Pela caterva etiópia
passou tocando rebate,
mas corpos, que pagam culpas,
não é bem, que à vida faltem.
Já se via pelas ruas
de porta em porta chegar-se
um devoto Teatino
intimando a confessar-se.
Quem para a morte deixara
negócio tão importante,
porque as lembranças da vida
negam da morte o lembrar-se.
Os campanários se ouviam
uma hora em outra dobrarem,
despertadores da morte,
porque aos vivos Ihe lembrasse.
Fez abrir nos cemitérios
em um dia a cada instante
para receber de corpos,
o que tinham de lugares.
Foi tragédia lastimosa,
em que pode ponderar-se,
que a terra sobrando a muitos,
se viu ali, que faltasse.
Os que nela não cabiam,
quando vivos, hoje cabem
numa sepultura a três,
quero dizer a três pares.
Viam-se as enfermarias
de corpos tão abundantes,
que sobrava a diligência,
para que a todos chegassem.
O remédio para as vidas
era impossível achar-se,
porque o número crescia
cada minuto, e instante.
Titubeava Galeno
com a implicância dos males,
porque o tributo das vidas,
mandava Deus, que pagassem.
O Senhor Marquês das Minas,
que Deus muitos anos guarde,
zeloso como cristão,
liberal como Alexandre:
Preveniu para a saúde,
Para que em tudo acertasse,
dividirem-se os enfermos
por casas particulares.
Este zelo foi motivo,
de que todos por vontade
(digo os possantes) mostraram,
serem próximos amantes.
Havia um novo hospital,
onde se admirou notável
o zelo de uma Senhora
Dona Francisca de Sande:
Mostrando como enfermeira
o desvelo em toda a parte,
e administrando a mezinha,
a quem devia de dar-se.
Consolando a quem gemia,
animando os circunstantes,
tolerando o sentimento
de que assim não acertasse.
Não reparando nos gastos
da fazenda, que eram grandes,
porque só quis reparar
vidas, por mais importantes.
O Marquês como Senhor
quis em tudo aventejar-se,
abrindo para a pobreza
os tesouros da vontade.
Repartia pelos pobres
esmolas tão importantes,
que o seu zelo nos mostrava
querer, que nada faltasse.
Publicando geralmente,
que a ele os pobres chegassem,
porque ao remédio de todos
sua Excelência não falte.
Mas se estava Deus queixoso,
que muito passasse avante
este castigo de culpas,
mais que inclemência dos ares.
Finalmente que a Bahia
chegou a extremo tão grande,
que aos viventes parecia
querer o mundo acabar-se.
Punha a morte cerco às vidas
tão cruel, e exorbitante,
que em três meses sepultou
da Bahia a maior parte.
Ah Bahia! bem puderas
de hoje em diante emendar-te,
pois em ti assiste a causa
de Deus assim castigar-te.
Mostra-se Deus ofendido,
nós sem desculpa que dar-lhe;
emendemos nossos erros,
que Deus porá termo aos males.
ENCONTRO QUE TEVE COM HUMA DAMA, MUY ALTA CORPOLENTA, E
DESENGRAÇADA.
1 Mui alta, e mui poderosa
Rainha, e Senhora minha,
por poderosa Rainha,
Senhora por alterosa:
permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso.
2 Fui ver-vos, vim de admirar-vos,
e tanto essa luz me embaça,
que aos raios da vossa graça
me converti a adorar-vos:
servi-vos de apiedar-vos,
ídolo d'alma adorado,
de um mísero, de um coitado,
a quem só consente Amor
por galardão um rigor,
por alimento um cuidado.
3 Dai-me por favor primeiro
ver-vos uma hora na vida,
que pela vossa medida
virá a ser um ano inteiro:
permiti, belo luzeiro
a um coração lastimado,
que por destino, ou por fado
alcance um sinal de amor,
que sendo vosso o favor
será por força estirado.
4 Fodamo-nos, minha vida,
que estes são os meus intentos,
e deixemos cumprimentos,
que arto tendes de comprida:
eu sou da vossa medida,
e com proporção tão pouca
se este membro vos emboca,
creio, que a ambos nos fica
por baixo crica com crica,
por cima boca com boca.
FUGINDO HUMA MULATINHA COM O SUGEYTO, QUE A TINHA FORRADO,
DESCREVE O POETA OS EXCESSOS, E SENTIMENTO, QUE MOSTRAVA HUMA
FULANA DE LIMA SUA SENHORA.
1 Fonseca - Senhora Lima, o que tem,
que amanheceu tão sentida?
diga-me por sua vida,
assim Deus Ihe faça bem:
diga-me qual é, e quem
Ihe causa tanta tristeza?
porquanto eu por natureza
sinto, se é ingratidão,
ou talvez murmuração
dessa sua sutileza.
2 Lima - Que hei de ter, minha Fonseca?
Um tormento, que me mata.
Fugiu Ilária a mulata,
porque já não quer ser peca:
despediu-se assim tão seca.
Fons. - Não chore, que ela virá.
Lim. - Jesus! que o mundo dirá!
que a mandei a Sor Martinho.
Fons. - Veja em casa do vizinho.
Lim. - Meu Estrela, tem-na lá?
3 Estr. - Quem, Senhora, cá tão cedo?
Lim. - Ilária, Senhor, pergunto,
que não sei, se algum defunto
ma levou tanto em segredo;
Ai vida cansada! hei medo,
pelo que se há de dizer.
Onde se iria esconder,
se ela não sabe caminho,
nem carreira? Meu vizinho.
Estr. - Senhora Lima? Lim. Que hei de fazer?
4 Lim. - Chica, que é de Ilarinha?
dize, negra do diabo.
Vai vê-la, senão teu rabo
pagará, por vida minha;
Chic. - Eu não sei da mulatinha,
nem me entendo com papéis:
quem deu cinqüenta mil-réis
a deve de ter em casa
porque aqui nunca fez vaza.
Lim. - Ó putona, isso dizeis?
5 Chic. - Digo, que Ilária é forra.
Lim. - Há de ser, quando eu morrer,
que isso está no meu querer;
cala essa boca, cachorra:
traga-me aqui logo, e corra,
que hei de quebrar-lhe o focinho.
Tem-na lá, senhor vizinho,
a minha Ilária, Senhor?
Estr. - Fugiu perdida de amor
pela manhã bem cedinho.
CO CIRRO NOS ESTREFOLHOS
MOTE
Ó meu pai, tu qués, que eu morra?
1 Co cirro nos estrefolhos
se queixava um negro cono
de ver, Ihe fincava o mono
o fodedor dos antolhos:
e revirando-lhe os olhos
dizia a puta cachorra,
desencaixa um pouco a porra,
eu venho a regalar-me,
e tu fodes a matar-me?
Ó meu Pai, tu qués, que eu morra?
2 Fretei uma negra mina
e fodendo-a todo o dia
a coitada não podia
porém era puta fina:
a porra nela se inclina
inclino com força a porra,
e forcejando a cachorra
ela me disse esperai,
e eu Ihe disse chegai,
Ó meu Pai, tu qués, que eu morra?
AUSENTE DE SUA CASA PONDERA O POETA O SEU MESMO ÊRRO,EM OCCASIÃO
DE SER BUSCADO POR SUA MULHER.
MOTE
Foi-se Brás da sua aldeia,
Sabe Deus, se tornará,
que viu no caminho a Menga,
e a Gila não quer ver mais.
1 Brás um Pastor namorado
tão nobre, como entendido
das Pastoras tão querido,
como na aldeia invejado:
dos arpões do Amor crivado
tanto os sentidos Ihe enleia,
Menga, e tanto se Ihe afeia
Gila em seu ciúme esquivo,
que por um, e outro motivo
Foi-se Brás da sua aldeia.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.