Por Gregório de Matos (1696)
7
Diz mais, que quando acabaste,
deste peidos tão atrozes,
que começou a dar vozes
por ver, que te espeidorraste:
e que também lhe rogaste,
depois de se ter tirado,
te fornicasse virado,
pois de costas não podia,
porque, quem tanto bolia,
era força estar cansado.
8
Saíste toda com susto,
e vendo ao triste queixar,
te puseste a escutar,
pois se queixava tão justo:
nada tem ele de injusto,
antes a metade cala,
e só a mim me regala
dizer, que atolava inteiro,
se a um ramo de araçazeiro
se não pegara por gala.
9
Guardaste triste merenda
para o triste do coitado,
que ficou tão enjoado,
que promete ter emenda:
e com tão grande Calenda
se veio de ti queixando,
que toda a gente pasmando
está de ver, que o teu vaso
é a fonte do Parnaso
nas águas, que está manando.
10
Ao burlesco será cono,
ao tudesco chancarona,
c'uma crica de azeitona,
onde encrica todo o mono:
daqui a razão entono
para te satirizar,
e se outra vez pespegar
quiseres, busca, garoupa,
quem no vaso entupa a roupa,
se a roupa o pode entulhar.
11
Anda a triste fralda tal,
tão hedionda, e molhada,
que só pode ser coroada
com fogo de São Marçal:
considere cada qual,
o que o Moço passaria
ao ver-se na estrebaria
daquele tremendo vaso,
que joga rasteiro, e raso
tão nojenta artilharia.
12
Não terás vergonha, puta,
de com tão ruim pentelho,
sobre seres vaso velho,
tomes a capa de enxuta?
és puta tão dissoluta,
que diz o Moço enjoado,
que já ficou ensinado,
e nunca mais te veria,
porque sempre d'água fria
há medo o gato escaldado.
A MESMA MARIA VIEGAS SACODE AGORA O POETA ESTRAVAGANTEMENTE,
PORQUE SE ESPEYDORRAVA MUYTO.
1
Dizem, que o vosso cu, Cota,
assopra sem zombaria,
que parece artilharia,
quando vem chegando a frota:
parece, que está de aposta
este cu a peidos dar,
porque jamais sem parar
este grão-cu de enche-mão
sem pederneira, ou murrão
está sempre a disparar.
2
De Cota o seu arcabuz
apontado sempre está,
que entre noite, e dia dá
mais de quinhentos truz-truz:
não achareis muitos cus
tão prontos em peidos dar,
porque jamais sem parar
faz tão grande bateria,
que de noite, nem de dia
pode tal cu descansar.
3
Cota, esse vosso arcabuz
parece ser encantado,
pois sempre está carregado
disparando tantos truz:
arrenego de tais cus,
porque este foi o primeiro
cu de Moça fulieiro,
que tivesse tal saída
para tocar toda a vida
por fole de algum ferreiro.
MATOS, Gregório de. Cota. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.