Por Gregório de Matos (1696)
3
Vão os olhos, Senhora, estai atento;
Sabeis os vossos olhos o que são?
São de todos os olhos um portento,
Um portento de toda a admiração:
Admiração do sol, e seu contento,
Contento, que me dá consolação,
Consolação, que mata o bom desejo,
Desejo, que me mata, quando os vejo.
4
A boca para cravo é pequenina,
Pequenina sim é, será rubi,
Rubi não tem a cor tão peregrina,
Tão peregrina cor eu a não vi:
Vi a boca, julguei-a por divina,
Divina não será, eu não o cri:
Mas creio, que não quer a vossa boca
Por rubi, nem por cravo fazer troca.
5
Ver o aljôfar nevado, que desata,
A Aurora sobre a gala do rosal,
Ver em rasgos de nácar tersa prata,
E pérolas em concha de coral:
Ver diamantes em golpe de escarlata
Em picos de rubi puro cristal,
É ver os vossos dentes de marfim
Por entre os belos lábios de carmim.
6
No peito desatina o Amor cego
Cego só pelo amor do vosso peito,
Peito, em que o cego Amor não tem sossego,
Só cego por não ver-lhe amor perfeito:
Perfeito, e puro amor em tal emprego
Emprego assemelhando à causa efeito,
Efeito, que é mal feito ao dizer mais,
Quando chega o amor a extremos tais.
7
Tanto se preza o Amor do vosso amor,
Que mais prazer o tem em amor tanto,
Tanto, que diz o Amor, que outro maior
Não teve por amor, nem por encanto:
Encanto é ver o amor em tal ardor,
Que arde tão bem o peito, por espanto,
Tendo de vivo fogo por sinal
Duas vivas empolas de cristal.
8
Ao dizer das mãos não me aventuro,
Que a ventura das mãos a tudo mata,
Mata Amor nessas mãos já tão seguro,
Que tudo as mãos lavadas desbarata:
A cuja neve, prata, e cristal puro
Se apurou o cristal, a neve a prata
Belíssimas pirâmides formando
Onde Amor vai as almas sepultando.
9
Descrever a cintura não me atrevo,
Porque a vejo tão breve, e tão sucinta,
Que em vê-la me suspendo, e me elevo,
por não ver até agora melhor cinta:
Mas porque siga o estilo, que aqui levo,
Digo, que é a vossa cinta tão distinta,
Que o Céu se fez azul de formosura,
Só para cinto ser de tal cintura.
10
Vamos já para o pé: mas tate-tate,
Que descrever um pé tão peregrino,
Se loucura não é, é desbarate,
Desbarate, que passa o desatino:
A que me desatina, me dá mate
O picante de pé tão pequenino,
Que pé tomar não posso em tal pegada,
Pois é tal vosso pé, que em pontos nada.
FINGE O POETA QUE SE ARREPENDE DE A TER AMADO, E TUDO PIQUES PARA SER QUERIDO.
De uma Moça tão ingrata
que pode contar agora
a Musa, que me arrebata,
senão que é falsa traidora,
e traidoramente mata.
Para a ingratidão não sei,
que se ponha certa a pena,
porque se a condena a Lei,
nunca certa pena achei
na mesma Lei, que a condena.
Isto agraveza casou
da culpa, que se condena,
que como torpe a julgou,
não pode chegar a pena,
onde a ingratidão chegou.
A maior condenação,
a mais terrível, e forte,
é, quando de morte a dão;
porém uma ingratidão
não se paga nem co'a morte.
Mas eu vejo, que esta ingrata
sobre não pagar co'a morte
as vidas, que desbarata,
vive ufana em sua sorte,
e sobre viver me mata.
Não me mata a ingratidão,
com que trata o meu amor,
mata-me a satisfação,
e glória, com que o rigor
me dá como galardão.
Se chegara a conhecer
que falta ao gratificar,
me obrigara a mais querer,
sem pressupor, que o dever
é gênero de pagar.
Mas cuidar de presumida,
que com deixar-se querer
me paga os riscos da vida,
e as ânsias do pertender
com dar-se por pertendida:
É crueldade, é rigor
que nenhum peito suporta:
mas recate o seu furor,
que eu sei, que nem sempre amor
há de estar atrás da porta.
Eu perdoara, o que deve
a meu ardor, e fineza,
e afirmo para firmeza
esta quitação tão breve,
que, do que lhe quis, me pesa.
CASUAL ENCONTRO QUE TEVE O POETA COM BRITES NO SEU RETIRO DE HUA ROÇA.
Fui ver a fonte da roça,
e quando a mais gente vai
a refrescar-se na fonte,
eu me fui nela abrasar.
Dentro na fonte achei Brites,
que ali se foi a banhar,
por dar que entender aos olhos
um cristal noutro cristal.
Noutras horas corre a fonte:
com Brites corrida vai,
vendo que a sua brancura
a excede nos cabedais.
Sentiu-me Brites ao longe,
e o fraldelim posto já
era narciso no campo,
quem foi incêndio do mar.
Cheguei, e vendo tão claro
da fonte o rico raudal,
estive um pouco perplexo
entre o crer, e o duvidar.
Enfim vim a persuadir-me
que Brites em caso tal
não foi lavar-se na fonte,
mas foi à fonte lavar.
Tão líquida, e transparente
corria, que por sinal
de Brites lhe pôr as mãos
desatada em prata vai.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Brites. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.