Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Briga, briga

Por Gregório de Matos (1696)

17
Por debaixo de uma amarra
na Nau, em que se embarcou,
este magano escapou
té sair fora da barra:
e por ver já cousa charra,
o não ter ele vergonha,
é razão, que o descomponha
de quanto à boca me vem:
mas não o saiba ninguém.

18
Boca, que males há feito,
bem é, que males se faça,
boca, que para mordaça
só parece, que tem jeito:
eu se isto tomar a peito,
juro a Deus onipotente,
não lhe deixar um só dente,
pois que morde, e diz a quem:
mas não o saiba ninguém.

19
Já que a todos descompõe,
quis agora por meu gosto,
que ele fosse o descomposto,
para ver se se compõe:
mil males sobre si põe,
quem de todos fala mal,
e assim que já cada qual
me pode dizer amém:
mas não o sabia ninguém.

20
De Cristão não é, senão
de herege, tudo, o que obra,
pois nele a heresia sobra,
e lhe falta o ser cristão:
remetê-lo à Inquisição
já uma vez se intentou,
mas bem veis, quem atalhou,
senhores, tão grande bem:
mas não o saiba ninguém.

21
Digo-te já de enfadado,
que se fores atrevido,
não só te há de ver perdido,
mas sim de todo acabado:
olha, que o que tens falado,
é mui bastante motivo
para te não deixar vivo,
do teu falar mal te vem:
mas não o saiba ninguém.

22
Não cuides me hás de escapar
por mais oculto que estejas,
para que magano vejas,
Há, quem te possa ensinar:
emenda esse teu falar,
corta essa língua mordaz,
vê, que este aviso te faz,
quem ela mordido tem:
mas não o saiba ninguém.

ESCANDALIZADO O POETA DA SATYRA ANTECEDENTE, E SER PUBLICADA EM NOME DO VIGARIO DE PASSÉ LOURENÇO RIBEYRO HOMEM PARDO, QUANDO ELLE ESTAVA INNOCCENTE NA FACTURA DELLA, E CALLAVA PORQUE ASSIM CONVINHA: LHE ASSENTA AGORA O POETA O CACHEYRO COM ESTA PETULANTE SÁTIRA.

1
Um Branco muito encolhido,
um Mulato muito ousado,
um Branco todo coitado,
um canaz todo atrevido:
o saber muito abatido,
a ignorância, e ignorante
mui ufano, e mui farfante
sem pena, ou contradição:
milagres do Brasil são.

2
Que um Cão revestido em Padre
por culpa da Santa Sé
seja tão ousado, que
contra um Branco ousado ladre:
e que esta ousadia quadre
ao Bispo, ao Governador,
ao Cortesão, ao Senhor,
tendo naus no Maranhão:
milagres do Brasil são.

3
Se a este podengo asneiro
o Pai o alvanece já,
a Mãe lhe lembre, que está
roendo em um tamoeiro:
que importa um branco cueiro,
se o cu é tão denegrido!
mas se no misto sentido
se lhe esconde a negridão:
milagres do Brasil são.

4
Prega o Perro frandulário,
e como a licença o cega,
cuida, que em púlpito prega,
e ladra num campanário:
vão ouvi-lo de ordinário
Tios, e Tias do Congo,
e se suando o mondongo
eles só gabos lhe dão:
milagres do Brasil são.

5
Que há de pregar o cachorro,
sendo uma vil criatura,
se não sabe da escritura
mais que aquela, que o pôs forro?
quem lhe dá ajuda, e socorro,
são quatro sermões antigos,
que lhe vão dando os amigos,
e se amigos tem um cão:
milagres do Brasil são.

6
Um cão é o timbre maior
da Ordem predicatória,
mas não acho em toda história,
que o cão fosse pregador:
se nunca falta um Senhor,
que lhe alcance esta licença
a Lourenço por Lourença,
que as Pardas tudo farão:
milagres do Brasil são.

7
Já em versos quer dar penada,
e porque o gênio desbrocha,
como cão a troche-mocha
mete unha e dá dentada:
o Perro não sabe nada,
e se com pouca vergonha
tudo abate, é, porque sonha,
que sabe alguma questão:
milagres do Brasil são.

8
Do Perro afirmam Doutores,
que fez uma apologia
ao Mestre da poesia,
outra ao sol dos Pregadores:
se da lua aos resplandores
late um cão a noite inteira
e ela seguindo a carreira
luz sem mais ostentação:
milagres do Brasil são.

9
Que vos direi do Mulato,
que vos não tenha já dito,
se será amanhã delito
falar dele sem recato:
não faltará um mentecapto,
que como vilão de encerro
sinta, que dêem no seu perro,
e se porta como um cão:
milagres do Brasil são.

10
Imaginais, que o insensato
do canzarrão fala tanto,
porque sabe tanto, ou quanto,
não, senão porque é mulato:
ter sangue de carrapato
ter estoraque de congo
cheirar-lhe a roupa a mondongo
é cifra de perfeição:
milagres do Brasil são.

RESPOSTA DO VIGARIO LOURENÇO RIBEYRO ESCANDALIZADO DE QUE O POETA Ó SATYRIZASSE DO MODO QUE FICA DITO.

1
Doutor Gregório Guaranha,
pirata do verso alheio,
caco, que o mundo tem cheio,
do que de Quevedo apanha:
já se conhece a maranha
das poesias, que vendes
por tuas, quando as emprendes
traduzir do Castelhano;
não te envergonhas, magano?

(continua...)

1234
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →