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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Opúsculo de Pedro Alz. da Neyva

Por Gregório de Matos (1696)

13
Aqui o ruço há de jazer
conforme o seu natural,
que é filósofo moral,
e no campo há de morrer:
quem teve, que escarnecer!;
e quem teve, que zombar!
todos enfim a puxar
deram todo aquele dia
co ruço na estribaria,
e trataram de curar.

14
Houve junta de alveitares,
ou Médicos de jumentos
carregados de instrumentos
balestilhas, e azeares:
item seringas a pares,
ungüentos, mechas, e talos,
e simples para formá-los
tudo remédios inanes,
porque só pós de Joanes
é remédio de cavalos.

15
Curou-se enfim o Frisão
pelos mais exprimentados
homens bem intencionados
pela primeira intenção:
mas sobrevindo um febrão
de implicadas qualidades,
em tantas calamidades
quis Deus, que não lhe aproveite
nem das Brotas o azeite,
nem o vinagre dos Frades.

16
Pedralves num acidente
fiado em seu privilégio
mandou pedir ao Colégio
um osso do Sol do Oriente:
mas sendo ao Reitor presente
a casta do agonizante,
dizei (disse) a esse bargante,
que o Santo a curar não presta
o mal, que ele tem de besta,
nem o do seu rocinante.

17
Com que o ruço a piorar,
as Relíquias a não vir,
Pedralves a se afligir,
e seu tio a se enfadar:
o dinheiro a se gastar,
e a casa a se aborrecer,
tanto veio a suceder,
que com pesar não pequeno
em chegando ao quatrozeno
o ruço veio a morrer.

18
Assistir-lhe na agonia
vieram, sem que uma manque,
todas as bestas do tanque
dos Padres da Companhia:
e uma, que cantar sabia,
uma lição lhe cantou,
e quando ao verso chegou,
onde diz: "andante me"
estirou o ruço um pé,
e dando um zurro acabou.

19
Ao tratar do enterramento
houve alguma dilação,
porque Pedralves então
chorava como um jumento:
mas aberto o testamento
perante um, e outro ouvinte,
se achou, que morrera aos vinte,
e testara aos vinte e três
de tal ano, e de tal mês,
e que dizia o seguinte.

20
Meu corpo vá amortalhado
no hábito de cacoetes,
que tem meu amo entre asnetes
de falar agongorado:
não o coma adro sagrado,
que um monturo bastará,
sendo que tão magro está
de Hipócrates, e Avicenas,
que vou receando apenas
para um bocado haverá.

21
Item ao Senhor Marquês,
a quem o céu há juntado
as ferezas de soldado
os carinhos de cortês:
pela mercê, que me fez,
de com tão justa razão
suspender de Capitão
meu Amo, que fica em calma,
lhe peço, pela sua alma,
que o suspenda de asneirão.

22
Meu Amo instituo enfim
por meu herdeiro forçado,
e lhe deixo de contado
a manjedoura, e capim:
item lhe deixo o selim,
que me pôs de sarna gafo,
e pois já morro, e abafo,
o mou bocado lhe deixo,
porque veja queixo a queixo,
o que vai de bafo a bafo.

ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR. THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.

Sete anos a Nobreza da Bahia
Serviu a uma Pastora Indiana, e bela,
Porém serviu a Índia, e não a ela,
Que à India só por prêmio pertendia.

Mil dias na esperança de um só dia
Passava contentando-se com vê-la:
Mas Fr. Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sue Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço, e de uma goiva:

Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão limpo amor tão suja Noiva.

AO MESMO ASSUNTO.

MOTE

Lá vem Maria, mais Ana,
e Pedro no meio delas;
ó Pedro, quem te roubara
a rica Noiva, que levas!

1
Apareceu na Bahia
Pedro, que tudo enfeitiça,
Moço da cavalariça
enxertado em fidalguia:
teve fortuna, e valia
tão alta, e tão soberana,
que o tio Milão se alhana,
e por serem tão manaças
lhe cantarão pelas praças
Lá vem Maria, mais Ana

2
Cantou-se-lhe em profecia,
porque correndo alguns anos
veio casar por enganos
com Madama Ana Maria:
por força de cantoria
se meteu Perico entre elas,
ou foi força das estrelas,
pois hoje ao mesmo compás
garganteia Fr. Tomás
"E Pedro no meio delas".

3
Um casamento ao revés
Fr. Tomás somente o faz,
e eu raivo de Fr. Tomás,
que tal casamento fez:
quando considero os três
Noivo besta, e Noiva rara,
e o Frade, que os maniatara,
metido entre os foliões,
canto invejando os dobrões,
Ó Pedro, quem te roubara!

4
Porém depondo arrogância
da paixão, e do interesse,
só Pedro a Noiva merece,
que a más Moros mas ganância:
não tenhas, Pedro, jactância,
nem tal dote à sorte devas,
pois tanto no bafo entrevas,
que se dá em to prefumar,
em pobre há de vir a dar
A rica Noiva, que levas.

(continua...)

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