Por Padre Antônio Vieira (1669)
Estava atônito Inácio do que lia, e de ver que havia no mundo outra milícia para ele tão nova e tão ignorada, porque os que seguem as leis do apetite, como se rendem sem batalha, não têm conhecimento da guerra. Já lhe pareciam maiores aqueles combates, mais fortes aquelas resistências, mais ilustres aquelas façanhas, mais gloriosas aquelas vitórias, e mais para apetecer aqueles triunfos. Resolve-se a trocar as armas, e alista-se debaixo das bandeiras de Cristo, e a espada de que tanto se prezava, foi o primeiro despojo que ofereceu a Deus e à sua Mãe nos altares de Monserrate. Aceitai, Senhora, esta espada que, como se hão de rebelar contra vós tantos inimigos, tempo virá em que seja bem necessária para defensa de vossos atributos. Lia Inácio as vidas dos confessores, e começando como eles, pelo desprezo da vaidade, tira o colete, despe as galas, e assim como se ia despindo o corpo, se ia armando o espírito. Lia as vidas dos anacoretas, e já suspirava pelos desertos, e por se ver metido em uma cova de Manresa, onde sepultado acabasse de morrer ao mundo, e começasse a viver ou a ressuscitar a si mesmo. Lia as vidas dos doutores e pontífices, e, ainda que o não afeiçoaram as mitras nem as tiaras, delibera-se a aprender para ensinar e a começar os rudimentos da gramática entre os meninos, conhecendo que em trinta e três anos de corte e guerra, ainda não começara a ser homem. Lia as vidas ou as mortes valorosas dos mártires, e com sede de derramar o sangue próprio, quem tinha derramado tanto alheio, sacrifica-se a ir buscar o martírio a Jerusalém, oferecendo as mãos desarmadas às algemas, os pés aos grilhões, o corpo às masmorras, e o pescoço aos alfanjes turquescos. Lia finalmente as vidas e as peregrinações dos apóstolos, e soando-lhe melhor que tudo aos ouvidos as trombetas do Evangelho, toma por empresa a conquista de todo o mundo, para dilatar a fé, para o sujeitar à Igreja, e para levantar novo edifício sobre os alicerces e ruínas do que eles tinham fundado. Isto era o que Inácio ia lendo, e isto o que juntamente ia trasladando em si e imprimindo dentro na alma. Mas quem lhe dissera então ao novo soldado de Cristo que notasse naquele livro o dia de trinta e um de julho, que advertisse bem que aquele lugar estava vago, e que soubesse que a vida de santo que ali faltava havia de ser a sua, e que este dia feriado e sem nome havia de ser o dia de Santo Inácio de Loiola, fundador e patriarca da Companhia de Jesus! Tais são os segredos da providência, tão grandes os poderes da graça, e tanta a capacidade da nossa natureza.
Para satisfazer às obrigações de tamanho dia, nem quero mais matéria que o caso que propus, nem mais livros que o mesmo livro, nem mais texto que as mesmas palavras: Et vos similes hominibus. Veremos, em dois discursos, Inácio semelhante a homens, e Inácio homem sem semelhante. Mais breve ainda: o semelhante sem semelhante. Este será o assunto. Peçamos a graça. Ave Maria.
§II
Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos como exemplar de todos eles; Santo Inácio o foi, porque todos os santos lhe serviram de exemplar: A pintura de Zêuxis e a santidade de Santo Inácio. Cristo e a diversidade de opiniões a seu respeito. Santo Inácio, embora um, era feito à semelhança de muitos.
Temos Santo Inácio com o seu livro nas mãos, com os exemplares de todos os santos diante dos olhos, e Deus dizendo-lhe ao ouvido: Et vos similes hominibus. Tantos instrumentos juntos? Grande obra intenta Deus. Quando Deus quer converter homens e fazer santos, lavra um diamante com outro diamante, e faz um santo com outro. Santo foi Davi: converteu-o Deus com outro santo, o profeta Natã. Santo foi Cornélio Centurião: converteu-o Deus com outro santo, S. Pedro. Santo foi Dionísio Areopagita: converteu-o Deus com outro santo, S. Paulo. Santo foi Santo Agostinho: converteu-o Deus com outro santo, S. Ambrósio. Santo foi S. Francisco Xavier: converteu-o Deus com outro santo, o mesmo Santo Inácio. Pois, se para fazer um santo basta outro santo, por que ajuntou Deus os santos de todas as idades do mundo, por que ajunta os santos de todos os estados da Igreja por que ajunta as vidas, as ações, as virtudes, os exemplos de todos os santos para fazer Santo Inácio? Porque tanto era necessário para fazer um grande santo.
Para fazer outros santos, basta um só santo; para fazer um Santo Inácio, são necessários todos. Para ser Santo Enós, basta que seja semelhante a Set; para ser S. José, basta que seja semelhante a Jacó: para ser São Josué, basta que seja semelhante a Moisés; para ser Santo Tobias, basta que seja semelhante a Jó; para ser Santo Eliseu, basta que seja semelhante a Elias; para ser Santo Timóteo, basta que seja semelhante a Paulo; mas para Inácio ser santo tão grande e tão singular como Deus o queria fazer, não basta ser semelhante a um santo, não basta ser semelhante a muitos santos, é necessário ser semelhante a todos. Por isso lhe mete Cristo nas mãos, em um livro, as vidas e ações heróicas de todos os santos, para que os imite e se forme à semelhança de todos: Et vos similes hominibus.
Falando Deus de
seu unigênito Filho por boca de Davi, diz que o gerou nos resplendores de todos
os santos: In splendoribus sanctorum genui te (Sl. 109,3). Estas palavras, ou
se podem entender da geração eterna do Verbo antes da Encarnação, ou da geração
temporal do mesmo Verbo, enquanto encarnado. E neste segundo sentido as
entendem Santo Agostinho, Tertuliano, Hesíquio, S. Justino, S. Próspero, S.
Isidoro, e muitos outros. Diz pois o Eterno Padre, que quando mandou seu Filho
ao mundo, o gerou nos resplendores de todos os santos, porque Cristo, como
ensina a Teologia, não só foi a cousa meritória de toda a graça e santidade,
mas também a cousa exemplar, e protótipo de todos os santos, enquanto todos
foram santos à semelhança de Cristo, imitando nele e dele todas as virtudes e
graças com que resplandeceram; e isto quer dizer: In splendoribus sanctorum.
Assim como todos os astros recebem a luz do sol, e cada um deles é juntamente
um espelho e retrato resplandecente do mesmo rei dos planetas, assim todos os
santos recebem de Cristo a graça, e do mesmo Cristo retratam em si todos os
dotes e resplendores da santidade com que se ilustram. Por isso o anjo, quando
anunciou a Encarnação, não disse: Qui nascetur ex te sanctus, senão: Quod
nascetur ex te sanctum,2 porque Cristo não só foi santo, mas o Santo dos
santos. O Santo dos santos, como fonte de toda a santidade por origem, e o
Santo dos santos, como exemplar de toda a santidade para a imitação.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.