Por Padre Antônio Vieira (1657)
Estava dito. Mas porque parecerá novidade dar dois nascimentos e dois dias de nascimentos a Cristo, saibam os curiosos que não é novidade nova senão mui antiga, e uma das mais bem retratadas verdades que o Criador do mundo nos pintou no princípio dele. No primeiro dia do mundo criou Deus a luz, no quarto dia criou o sol. Sobre estes dois dias e estas duas criações há grande batalha entre os doutores, porque se o sol é a fonte da luz, que luz é esta que foi criada antes do sol? Ou é a mesma luz do sol, ou é outra luz diferente? Se é a mesma, por que não foi criada no mesmo dia? E se é diferente, que luz é, ou que luz pode haver diferente da luz do sol? Santo Tomás, e com ele o sentir mais comum dos teólogos, resolve que a luz que Deus criou o primeiro dia foi a mesma luz de que formau o sol ao dia quarto. De modo que em ambos estes dias e em ambas estas criações foi criado o sol. No primeiro dia foi criado o sol informe; no quarto dia foi criado o sol formado. São os termos de que usa Santo Tomás. No primeiro dia foi criado o sol informe, porque foi criado em forma de luz; no quarto dia foi criado o sol formado, porque foi criado em forma de sol4. Em conclusão, que entre todas as criaturas só o sol teve dois dias de nascimento: o primeiro dia e o quarto dia. O quarto dia em que nasceu em si mesmo, e o primeiro em que nasceu na sua luz. O quarto dia em que nasceu sol formado, e o primeiro em que nasceu na luz de que se formau. Pode haver propriedade mais própria? Agora pergunto eu, se alguém me não entendeu ainda: quem é este sol duas vezes nascido? E quem é esta luz de que se formau este sol? O sol é Jesus, a luz é Maria, diz Alberto Magno. E não era necessário que ele o dissesse. Assim como o sol nasceu duas vezes, e teve dois dias de nascimento; assim como o sol nasceu uma vez quando nascido e outra antes de nascer; assim como o sol uma vez nasceu em si mesmo, e outra na sua luz; assim, nem mais nem menos, o sol Divino, Cristo, nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento. Um dia em que nasceu em Belém, outro em que nasceu em Nazaré. Um dia em que nasceu quando nascido, que foi em vinte e cinco de dezembro, e outro dia em que nasceu antes de nascer, que foi neste venturoso dia. Um dia em que nasceu de sua Mãe, outro dia em que nasceu com ela. Um dia em que nasceu em si mesmo, outro dia em que nasceu naquela de quem nasceu: De qua natus est Jesus.
Temos introduzido e concordado o Evangelho, que não é a menor dificuldade deste dia. Para satisfazermos à segunda obrigação, que não é senão a primeira, peçamos à Senhora da Luz nos comunique um raio da sua. Ave Maria.
§II
Razões por que devemos festejar este dia antes por nascimento da luz que por nascimento do sol Cristo sol de justiça, e a Senhora da Luz, Mãe de misericórdia.
De qua natus est Jesus. Suposto que temos neste natus do Evangelho dois nascidos, e nesse nascimento dois nascimentos: o nascimento da luz, Maria, nascida em si mesma, e o nascimento do sol, Cristo, nascido na sua luz, qual destes nascimentos faz mais alegre este dia? E por qual deles o devemos mais festejar? Por dia do nascimento da luz, ou por dia do nascimento do sol? Com licença do mesmo sol, ou com lisonja sua, digo que por dia do nascimento da luz. E por quê? Não por uma razão, nem por duas, senão por muitas. Só quatro apontarei, porque desejo ser breve. Primeira razão: porque a luz é mais privilegiada que o sol. Segunda: porque é mais benigna. Terceira: porque é mais universal. Quarta: porque é mais apressada para nosso bem. Por todos estes títulos é mais para festejar este dia por dia do nascimento da luz, que por dia, ou por véspera, do nascimento do sol.
Mas porque este sol e esta luz, entre os quais havemos de fazer a comparação, parecem extremos incomparáveis, como verdadeiramente é incomparável Cristo sobre todas as puras criaturas, entrando também neste número sua mesma mãe, antes que eu comece a me desempenhar deste grande assunto, ou a empenharme nele, declaro que em tudo o que disser, procede a comparação entre Cristo como Sol de justiça, e a Senhora da Luz, como Mãe de misericórdia, e que assim como os efeitos da luz se referem à primeira fonte dela, que é o sol, assim todos os que obra a Senhora em nosso favor, são nascidos e derivados do mesmo Cristo, cuja bondade e providência ordenou que todos passassem e se nos comunicassem por mão de sua Mãe, como advogada e medianeira nossa, e dispensadora universal de suas graças. Assim o supõe com S. Bernardo a mais pia e bem recebida teologia: Nihil Deus nos habere voluit, quod per manus Mariae non tronsisset5, Isto posto:
§III
Primeira razão: a luz é mais privilegiada que o sol. A luz, e não o sol, é a chave que abre as portas do dia. O dia é filho da luz e não do sol. O papel importante da luz na criação do mundo. O nascimento da Virgem e a criação da luz.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.